Preferiu o livro ou o filme?

Filme
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Literatura e cinema são universos muito distintos, mas um serve de inspiração para o outro

Por Leo Cunha

Abro a coluna deste mês com uma anedota que adoro repetir. Dois ratinhos estão na sala de projeção de um cinema, roendo um filme. Quando terminam a refeição, um deles pergunta: “E aí, gostou?”. E o outro responde: “Preferi o livro”.

A literatura sempre foi uma grande inspiração para o teatro, a ópera e o cinema. Adoro assistir a adaptações, mas evito comparações como aquela do ratinho da piada. Afinal de contas, literatura e cinema são universos muito distintos. Um romance, via de regra, consegue penetrar mais na mente dos personagens, seus pensamentos, aflições, angústias e dúvidas. O filme, por sua vez, tem maior desenvoltura ao apresentar as ações e os diálogos, os personagens e os ambientes.

Outra diferença importante tem a ver com a dimensão de cada obra. Um romance de 200 páginas, por exemplo, talvez requeira algumas horas de leitura, enquanto os filmes de longa-metragem duram, em média, 100 minutos. Isso, por si só, já implica algum tipo de simplificação ou redução. O soviético Lev Kulidjanov, roteirista e diretor do filme Crime e castigo, declarou que uma adaptação completa do clássico de Dostoiévski corresponderia a um filme de 25 horas, mas ele precisava reduzir a história a duas horas e meia. Em parte por isso, o mestre Alfred Hitchcock preferia adaptar contos ou novelas do que um longo romance.

Como vimos, é difícil fazer uma adaptação cinematográfica muito fiel ao enredo de um romance. E, ao longo do processo, surgem outros dilemas. No caso das adaptações de livros infantis para o cinema, por exemplo, é inegável que alguns filmes “forçam a barra” para tornar as histórias mais leves e inofensivas, com medo de perturbar ou entristecer as crianças, como se fosse preciso (ou possível, ou desejável) poupá-las das dores do mundo. Algumas produções da Disney já foram acusadas de edulcorar demais os textos originais, caso até mesmo de ótimas animações como Pinóquio e O corcunda de Notre Dame.

Adaptações no Brasil

No Brasil, existem exemplos bem-sucedidos – em termos estéticos e narrativos, não necessariamente de bilheteria – de livros infantis adaptados para o cinema, como O Menino Maluquinho, e outros frustrantes, como O fantástico mistério de Feiurinha.

Livro
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Lembro-me de ter conversado com Pedro Bandeira quando seu livro – lançado em 1986 – estava em processo de adaptação para as telonas. A expectativa do autor era muito boa, afinal, trata-se de um livro adorado por várias gerações de crianças brasileiras, e que traz uma trama muito interessante e bem amarrada. De certo modo, Bandeira já propunha o que animações como Shrek e Deu a louca na Chapeuzinho também fizeram, tempos depois: apresentar o que aconteceria por fora, ou para além, das páginas dos contos de fada.

No final das contas, porém, o filme, dirigido pela experiente Tizuka Yamasaki, foi uma decepção, inclusive para o próprio Pedro – e não estou cometendo aqui nenhuma inconfidência, pois ele já declarou isso publicamente. O fracasso se deu em parte por questões ligadas ao elenco – que era liderado por atores inexperientes, mas principalmente, a meu ver, por uma mudança equivocada ocorrida no próprio roteiro: aquela deliciosa história baseada no poder da imaginação (e, portanto, da fantasia e da própria arte) foi distorcida para um “eu acredito na magia do amor”. Não colou.

Já as duas adaptações do Menino Maluquinho para longas-metragens – dirigidas por Helvécio Ratton, em 1995, e por Fernando Meirelles, em 1998 – foram muito mais satisfatórias. Talvez tenha colaborado para isso o fato de o livro de Ziraldo, lançado em 1980, praticamente não ter uma trama, sendo todo ele uma grande apresentação do adorável personagem principal. Portanto, havia muito mais espaço para o roteirista criar vários tipos de cenas, peripécias e reviravoltas, sem correr o risco de deturpar o que estava no livro original.

O ratinho diria: “Saboreei os dois, um de entrada e outro de sobremesa”.

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor. Além de autor do livro Cachinhos de Prata, publicado por Paulinas Editora.

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