Vida e morte: por que não somos eternos?

Morte e vida
Dalila Dalprat/Pexels.com

Passamos a vida inteira tentando ao menos adiar o que mais cedo ou mais tarde é algo inevitável pelo simples fato da finitude

Por Edson Kretle

Prezado leitor, nossa relação com a morte se transformou radicalmente diante da pandemia, que ceifou mais de 485 mil vidas em nosso país. Não são apenas estatísticas, pois números jamais mensuram a dor de corações dilacerados. São vidas. São pais, mães, filhos, avós, amigos, parentes e profissionais que se despediram sem nos dar a chance de dizer adeus.

Infelizmente, já que essa situação tem passado sobre nós como um trator arando um terreno, vamos aproveitar e plantar novas sementes sobre nossa alma “arada (Louise Madeira). Então, convido você a usarmos esse doloroso fato e pensarmos sobre a brevidade da vida. Falar acerca disso é refletir sobre o sentido da própria existência e rever nossos valores, pois a vida é um sopro e nossos dias são como sombras que passam (cf. Sl 144,4).

Na visão religiosa, a morte é o início de um novo ciclo de vida. Por esse motivo, sempre precisamos das religiões para acalentar nosso coração ao tomarmos consciência de que a imortalidade é um atributo exclusivo das divindades (cf. 1Tm 6,16) e de que “certamente morreremos” (cf. Gn 2,17). A crença de que a vida não termina aqui constitui o núcleo de todas as experiências religiosas; logo, a morte seria apenas o “pôr do sol, que representa, ao mesmo tempo, o nascer do sol em outro lugar” (Schopenhauer). 

Diante desse fato, surgem algumas questões: como podemos ser felizes sabendo que vamos morrer? Por que não somos eternos? Qual, afinal, é a finalidade última de nossa vida? Diante de tanta angústia, as diversas religiões nos lembram de que nos resta recorrer à fé, já que ela é a única “certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (cf. Hb 11,1).

Entretanto, para o filósofo Heidegger a morte é o fim de todos os seres vivos. Afirmação óbvia, porém quase nunca levada a sério profundamente por nós. Morrer significa “não ser mais”. Passamos a vida inteira tentando ao menos adiar o que mais cedo ou mais tarde é algo inevitável pelo simples fato da finitude. Diante disso, surge em nós a angústia ao tomar consciência de que todos nossos projetos são insignificantes. Mas esse pensamento não torna a vida muito dolorosa? Muito pelo contrário, “viver para a morte” faz a vida ser autêntica, pois é justamente a consciência do fim que nos faz querer viver sem sermos engolidos pelo turbilhão de dispersões que nos fazem pensar em tantas outras coisas e “esquecer que estamos esquecidos de nós mesmos” (Heidegger).

Morte
Artem Beliaikin/Pexels.com

Vida prolongada

Mesmo com a triste desigualdade social em nosso país, as pessoas estão aumentando a expectativa de vida, mas Sêneca nos alerta que “ninguém se preocupa em ter uma vida virtuosa, mas apenas com quanto tempo poderá viver. Todos podem viver bem, ninguém tem o poder de viver muito”. Nesse sentido, quem garante que quem viveu mais anos realmente viveu mais? Existem milhões de “existências cadavéricas”, pessoas com almas mortas em corpos vivos que vagam em busca de um sentido para viver. Aposto que, assim como eu, você também conhece muitas pessoas sem projetos pessoais e coletivos. Assim, a vida plena de si mesmo não pode ser resumida apenas na pequenez pelo tempo que durou, porque “o tempo dura bastante para aqueles que sabem aproveitá-lo” (Leonardo da Vinci).

Por fim, é importante ressaltar que uma das lições mais importantes que a morte nos ensina é a de que o mundo existia antes de você chegar e continuará existindo após sua partida. Logo, a vida é um exercício diário de humildade. Isso a torna ainda mais urgente em um mundo dominado pelas vaidades de uma época consumista que se esqueceu de “que somos pó e ao pó retornaremos” (cf. Gn 3,19). Portanto, o verdadeiro inferno é quando chegamos ao fim da vida e percebemos que ela não valeu a pena.

Contudo, não devemos pensar na morte o tempo todo. Isso seria muito doloroso e demasiado pessimista. Porém, se pensássemos mais em nossa finitude, viveríamos mais plenos de nós mesmos. Aposto que se cada instante, cada encontro, cada pessoa, cada sorriso, cada lágrima, enfim, tudo o que vivemos agora fosse encarado como uma possível despedida, amaríamos mais e odiaríamos menos. Quem viver o amor e fugir do ódio conseguirá ser sinal terrestre da vitória do amor, mesmo após a morte.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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10 COMENTÁRIOS

  1. Querido Edson,
    Que reflexão!!
    Coincidentemente estou lendo este texto dia 08 de novembro, três dias após a morte que abalou o Brasil: A despedida de Marília Mendonça deste mundo.
    Cada vez mais consigo compreender como somos instantes e como a vida é linda de se viver!❤
    E, como diz Edgard Abbehusen: “Tem sido dias difíceis. O que nos resta é abraçar os nossos. Cuidar mais dos nossos. Proteger os nossos amigos. Zelar por quem a gente ama. Orar, vigiar. Entregar nas mãos de Deus toda essa bagunça. Viver os nossos dias com muita disposição. Não sabemos se o amanhã virá, nem como será o pôr do sol. Então, faça tudo o que tiver que fazer AGORA. Não espere nem mais um minuto, pois não temos nem o próximo segundo garantido.”
    Não preciso dizer mais nada, não é mesmo?
    Ótima reflexão, Edson! Parabéns ❤

  2. Texto maravilhoso, professor. Bela reflexão de Sêneca. Talvez estejamos alongando nossa passagem na Terra em número de anos vividos, mas esquecemos de realmente viver e aproveitar as inúmeras páginas da vida. Cada dia com seus nuances e aprendizados. Fico a espero do próximo texto! Grande abraço!

  3. Amo ler seus textos e sempre aprendo de você. Te confesso que o fenômeno da morte não me preocupa. Entendo que cuidar da vida, respeitar e preservá- la, vivê- la como vida plena, e abundante,mesmo que e apesar de, é o mínimo que cada um de nós pode fazer. Creio na imortalidade da vida.

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