Há dignidade no trabalho em tempos de precarização do trabalhador?

Trabalho
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Por Edson Kretle

Estimado/a leitor/a, iniciamos este mês de maio com a comemoração do Dia do Trabalhador, o qual surgiu nos Estados Unidos, em 1º de maio de 1886, quando os trabalhadores protestaram contra uma jornada extenuante e por melhores condições de trabalho. Atualmente, esse dia é para celebrar e reivindicar as conquistas dessa classe no decorrer dos anos; por isso, é importante uma reflexão sobre o tema do trabalho. Igualmente, aposto que desde muito cedo você ouviu dizer que o “trabalho dignifica o homem”, “se você gosta do seu trabalho, será sempre feliz”, “Deus ajuda quem cedo madruga”. 

Portanto, convido-o/a para refletir a seguinte questão: o trabalho na sociedade atual tem sido fonte de autoconstrução, realização e liberdade?

Segundo o último levantamento do IBGE, o desemprego atinge 12 milhões de brasileiros, gerando uma desigualdade social que podemos constatar tanto nas diferenças entre as moradias até em nossos carrinhos de compras no supermercado. Para melhor esclarecer essa disparidade, basta lembrar que os cinco empresários mais ricos do país possuem uma riqueza equivalente à de 100 milhões de brasileiros juntos. Assim sendo, nesse contexto de injustiça social, ao invés de ser fonte de realização humana, o trabalho se torna apenas uma prisão para a sobrevivência de milhares de pessoas. 

O impacto da era informacional-digital

Para o professor da Unicamp Ricardo Antunes, os direitos do trabalhador estão cada vez mais frágeis e, portanto, a atividade do trabalho perde sua dignidade e sua capacidade de fazer o trabalhador se tornar reconhecido naquilo que faz. Para ele, a era informacional-digital leva à fragmentação social e à precarização do trabalho, que pode nos conduzir a uma difícil escolha entre o “desemprego completo” ou “o privilégio da servidão” pelas novas formas de trabalho informal, terceirizado e “uberizado”. A promessa da tecnologia de nos trazer mais tempo livre se configurou como um grande engano, pois muitos brasileiros trabalham até 18 horas por dia para garantir não o luxo, mas o mínimo para sobreviver diante da atual e escandalosa precariedade do trabalho, ressaltada pelas reformas trabalhistas e intensificada ao longo da pandemia da Covid-19, que assola todos os continentes, afetando o bem-estar e as necessidades básicas de cada indivíduo.

Dia do Trabalho
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Para além dos aspectos sociológicos, podemos trazer esta reflexão para nossa existência; afinal, desde muito pequenos somos ensinados que devemos estudar para arrumar um bom emprego, pois somente assim podemos garantir nossa subsistência e, com muito empenho, comprar um carro e uma casa (hoje em dia, talvez seja mais importante adquirir o mais novo lançamento de celular ou outras “necessidades desnecessárias”). Evidente que precisamos sonhar e buscar nosso conforto material, porém é preciso “saber viver” (Titãs) em uma sociedade que parece que a cada dia reduz sua existência ao ato de comprar para depois trabalhar muito para pagar os invencíveis e onipresentes “deuses” boletos, os mais terríveis da “religião” do capitalismo nosso de cada dia.

Como usar o trabalho a nosso favor?

No contexto em que somos afetados por um turbilhão de informações, torna-se cada vez mais difícil o ser humano esculpir a si mesmo no mundo do trabalho (se o/a leitor/a ainda não conhece, vale a pena pesquisar a escultura de Bobbie Carlyle, chamada Self Made Man). Somos adestrados pelas cobranças e metas postas por nossos superiores e, se não bastasse, como carrascos de nós mesmos, dobramos esses objetivos e nos esquecemos de que somos seres limitados. Admitir isso é o começo da cura da sociedade da expectativa (sobre isso, convido o/a leitor/a para conferir essa reflexão na coluna de fevereiro de 2022). 

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É óbvio que tudo na vida exige planejamento e fins, mas faz-se mister questionar um estilo de trabalho que apenas tem potencializado doenças, como a depressão, a ansiedade e a Síndrome de Burnout. Portanto, enquanto sociedade, eis as questões: como puxar o “freio de mão” e pensar um pouco no que temos nos tornado para nós mesmos? Como se autoconstruir e se realizar, se o pouco tempo que temos é ocupado com coisas que não edificam, mas apenas nos mantêm distraídos e eternos fugitivos de nós mesmos?

A realização humana pautada na liberdade não pode ser alcançada em uma sociedade que corre o risco de se contentar com a faculdade do trabalho que se converte em “mero viver” (Hannah Arendt). Logo, é importante novas relações sociais pautadas na solidariedade, na justiça e naquilo que cada uma traz dentro de si, além de descobrirmos se a dignidade humana está na felicidade individual ou na coletiva.

Edson Kretle é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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