Somos uma sociedade hipócrita?

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Por Edson Kretle dos Santos

Estimado leitor, vivemos em um momento em que se estimula a hipocrisia, principalmente nas redes sociais, em que cada vez mais expomos nossas vidas. A cada segundo, um post. Sempre vemos fotos e vídeos dos famosos, amigos, parentes e conhecidos. “Mas quem me dera ao menos uma vez” acreditar que todas as pessoas são sinceras e felizes. Vivemos a época das aparências, dos belos discursos, dos espetáculos, do “faça o que eu digo”, porque sou “gente de bem”. Com tudo isso, surge em nosso tempo um grande vício: a hipocrisia. 

Para início de conversa e para melhor ilustrar o tema, permita-me relembrar uma antiga e conhecida fábula do escritor Esopo (V a.C.): “Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais da floresta. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: ‘Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!’. Assim, algumas pessoas ignorantes, que, graças à soberba, dão a impressão de ser as tais, são desmascaradas pela própria tagarelice”.

O uso de máscaras

A meu ver, assim como na parábola citada acima, não conseguimos manter por muito tempo a nossa máscara de perfeição, que permite nos fingirmos de justos para condenar o outro como pecador. Muitas vezes, usamos as máscaras da falsa devoção religiosa, dos falsos bons costumes e da falsa compaixão. Assim sendo, caímos na hipocrisia, que é uma manifestação fingida. É tudo aquilo que fazemos de conta que somos para encobrir a falta de sinceridade em muitas de nossas práticas e discursos repletos de falsos moralismos.

Nessa mesma linha de raciocínio, em Mateus 23, Jesus condena e chama de guias cegos todos os líderes religiosos, políticos e intelectuais que deixam de lado o mais importante na construção do Reino, que são a justiça e a misericórdia. Será que estamos dispostos a limpar nossos sepulcros caiados? Realmente desejamos abandonar o fato de parecermos bonitos por fora, mas por dentro estarmos cheios de misérias? Desse modo, devemos ser cautelosos, porque talvez aquilo que julgamos, falamos e criticamos no outro seja apenas reflexo de nossa podridão interior. Afinal, “a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6,45).

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Creio que você já percebeu, caro leitor, que a hipocrisia não tem classe social, gênero, partido político e muito menos religião. Aposto que, assim como eu, você conhece alguém ou até em muitos momentos já se percebeu como aquele que fala correto, porém não vive da maneira como tão lindamente fala. Precisamos cuidar de nossas convicções e zelar para não começarmos a acreditar nas mentiras que contamos para os outros e para nós mesmos. Assim, é pertinente a provocação do místico alemão do século XV, Tomaz Kempis: “Se não vos podeis tornar tal como desejais, como podereis desejar que os outros sejam iguais a vós?”.

Fazer tudo por amor

Quem sabe, usando Agostinho, consigo esclarecer melhor meu ponto de vista. Ele nos ensinou: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor será os teus frutos”. Resumindo: não importa o que você diz, mas a forma como você diz. Duvido muito que, se alguém sentir amor no que você fala, ele não irá entender ou ao menos se abrir para um diálogo frutífero. Até mesmo porque o “amor não se ostenta, não se incha de orgulho” (cf. 1 Coríntios 13,4).

Por fim, deixo a reflexão tão oportuna de São Francisco de Assis: “Pregue o evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”. Não se assuste, estimado leitor. A conquista do reino de Deus e a luta para ser uma pessoa melhor a cada dia exigem um processo constante de conversão e de evolução humana. Não se desespere ante o risco da hipocrisia nossa de cada dia. O mais importante é seguirmos aprendendo a nos amar e amar ao próximo com nossos muitos acertos e erros.


Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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