Estar sozinho não é estar solitário

Sozinho
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Por Edson Kretle

Prezado leitor, provavelmente, assim como eu, você já experimentou o sentimento de solidão alguma vez na vida. Estar em “companhia da solidão” é cada vez mais crescente nestes tempos. Vale ressaltar que estar só é importante, pois nos possibilita conhecer a nós mesmos. Já o sentimento de solidão faz surgir em nós emoções negativas que diminuem a potência do viver. O modo de vida baseado no egoísmo nos convenceu de que viver sozinho é mais fácil, afinal, não temos que “negociar” nada com ninguém.

As redes sociais são as culpadas da solidão?

Diante dessa realidade, é justo demonizar os aparelhos eletrônicos e a internet? Essas ferramentas respondem a muitas necessidades, por exemplo, sem elas, você não estaria lendo agora este texto. Assim, não devemos procurar culpados nem inocentes, mas apenas pensar o que estamos fazendo de nós mesmos.

Redes sociais
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Na década de 1980, foram lançados os primeiros walkmans, que se tornaram uma febre em todo o mundo. Um dos slogans era: “Você nunca mais estará só”. Certamente, os publicitários sabiam que a solidão já era um grande medo enfrentado pelos humanos. Naquele tempo, estar conectado a uma rádio AM/FM ou a uma fita cassete era o modo mais avançado de fugirmos da solidão. Em sintonia com isso, fomos também criando o hábito de estar cada vez menos em nossa própria casa ou, quando estamos, nossas conversas e encontros familiares ficaram cada vez mais raros, pois as vozes que se ouviam eram apenas dos aparelhos de TVs ligados em quase todos os quartos da casa.

A TV tinha uma vantagem: você não a carregava no bolso. Por isso, hoje é a vez da sedução dos modernos celulares, que nos conectam com o mundo apenas com alguns toques na tela. Com isso, a companhia e a presença do outro foram substituídas pelas redes sociais, pois parece que somente assim preenchemos o tédio e o vazio. Estamos com o mundo na palma de nossas mãos, mas por que nos distanciamos de nós mesmos e das pessoas que nos cercam?

Estamos desaprendendo a conviver

Evidentemente que as mídias sociais são importantes para encontrar e conhecer pessoas, estudar, divulgar negócios, entre outras funções positivas. Entretanto, observamos que estamos cada vez mais alienados da vida real, pois conviver exige diálogo, renúncias e paciência. Possivelmente, nenhum de nossos “amigos virtuais” exige essas virtudes, afinal, contatos virtuais não portam defeitos reais. Caso comecem a demandar muito de nós, apenas com um toque no celular esse “amigo” deixa de estragar o mundo perfeito que lutamos para construir com uma visão míope sobre política, religião, futebol, moral etc.

Convivência

O grande risco é que estamos desaprendendo a conviver com o outro sob a penalidade de não sabermos mais o caminho de encontrar o próximo. É um grande risco a solidão se tornar um hábito. Portanto, adaptando uma sentença do pensador Nietzsche (1844-1900), temos nossa solidão roubada e em troca não nos é oferecida uma verdadeira companhia.

A filósofa Hannah Arendt (1906-1975) faz uma distinção muito importante para a compreensão desse tema. Ela aponta que o isolamento significa o momento em que todos os vínculos são destruídos e qualquer convivência é impossível, tornando a vida árida pela impossibilidade de comunicação e de contato entre nós. Isolados uns dos outros, apenas encontramos tempo para trabalhar, produzir e consumir. Diferentemente do isolamento, a solitude é um tipo “positivo” de solidão, que possibilita entrar e manter o diálogo consigo mesmo. Nesse sentido, ao conhecer e encontrar a si mesmo, pode-se ir ao encontro do outro. Portanto, resta-nos dois questionamentos: como é possível derrotar a solidão, na qual as pessoas já não toleram mais estar consigo mesmas? Como posso ser uma companhia para o outro se não sou uma boa companhia para mim mesmo?

Penso ser nosso dever ético lutar contra esse aumento da solidão, pois já foi provado pela ciência que esse sentimento pode ser um dos desencadeadores de problemas físicos e emocionais. Estamos na primavera, portanto, sejamos como ela e lutemos para que o mundo e as relações não se transformem num eterno e tenebroso inverno. Sigamos o exemplo de Francisco de Assis, pois ele nos ensina que juntos podemos inspirar esperança onde há desespero e a luz do encontro onde há trevas da solidão. Sigamos juntos e confiantes, porque, mesmo com o frio e tantos outros males do inverno que temos passado, há sempre a beleza das flores que brilham na primavera para nos encher de esperança. E um dia, quem sabe, entoaremos juntos a canção de Sandra de Sá: “Que solidão que nada, eu preciso é ser amada(o), eu preciso é ser feliz”.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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