Política se discute?

Política
Cottonbro/ Pexels.com

A política é uma questão muito séria para ser deixada apenas para uma parte do fanatismo que impera nas redes

Por Edson Kretle

Querido leitor, acredito que muitas vezes já ouviu frases como: “Não quero mais saber de política”; “Política é coisa suja”; “Todo político é igual”; “Todos os partidos são iguais”. Nessa linha de raciocínio, algumas pessoas repetem e insistem no famoso bordão de que “política, futebol e religião não se discutem”.

Porém, para início de nossa conversa, cito uma célebre frase do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que diz que “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. Logo, conversar sobre política se torna urgente em um momento no qual falamos de política o tempo todo, mas não conseguimos dialogar com quem pensa diferente de nós. Contudo, sem diálogo não há pluralidade de ideias. Sem pluralidade de ideias não existe política e sem política somente nos resta o terrível horizonte da barbárie.

Sob essa ótica, para uma parcela da sociedade, o uso das redes sociais tornou a política uma paixão, ou melhor, uma seita. Por esse motivo, grande parte do debate em torno de problemas estruturais do País apenas se converte em uma arena das paixões infantis, em que a superficialidade dos problemas é a regra. Infelizmente, essas atitudes têm nos levado à descrença para com a democracia e aos riscos de entradas sombrias pelas portas do autoritarismo. 

Se as questões políticas não são compreendidas de modo mais racional e menos passional, nos situamos diante do risco da solução fácil do maniqueísmo político, que divide a sociedade em grupos. Essa separação simplista entre bons e maus, justos e injustos, corruptos e santos encobre problemas mais profundos acerca dos fundamentos de nossa vida social e política. Assim sendo, sempre é tempo adequado para pensarmos nos pactos e nas promessas que celebramos em torno da Constituição e dos fundamentos do Estado democrático. Mais importante ainda é compreender e fomentar a necessidade da confiança mútua entre os cidadãos acerca de consensos mínimos, a fim de estabelecer uma convivência coletiva que se alicerce cada vez mais em direitos civis, políticos e sociais, os quais não excluam ninguém, afinal, somente assim poderá ser uma verdadeira República.

Mas como criar na sociedade essa consciência política, meu querido leitor? Em minha opinião, duas possíveis respostas podem ser encontradas em dois grandes pensadores: Montesquieu e Habermas. O francês Montesquieu (1689-1755), lá no século XVIII, já tinha consciência dos desafios de se estabelecer uma república e o sistema político que referimos acima. Para ele, a Educação é um poderoso e salutar instrumento capaz de inspirar o amor à pátria. 

Ou seja, pela Educação é possível fomentar a construção de um cidadão virtuoso, tolerante a ideias contrárias e com um desejo de agir tendo em vista o bem comum, mesmo quando esse bem esteja em oposição aos seus interesses individuais. Já de acordo com o filósofo alemão Habermas (1929-), o patriotismo nos tempos atuais deve ser constitucional. Em outras palavras, devemos promover uma identidade nacional, mas sem radicalismos e extremismos que unicamente contribuem para o aumento do ódio e da divisão entre nós. Assim sendo, o verdadeiro patriotismo necessita ser nutrido pelos valores éticos e constitucionais que assegurem a integração, a inclusão, o diálogo, os Direitos Humanos e a solidariedade social entre os cidadãos. 

Nunca foi tão atual a frase que circula na internet, de autoria desconhecida, que diz: “Éramos todos humanos, até que a raça nos desligou. A religião nos separou. A política nos dividiu. O dinheiro nos classificou”. Portanto, façamos diferente, pois a política é uma questão muito séria para ser deixada apenas para uma parte do fanatismo que impera nas redes. Somente dessa forma poderemos recuperar a dignidade da política.

Por fim, nos fica a certeza de que a promessa de uma política pautada nesses princípios consiste na consciência de que, “com quanto mais força penderem os pratos da balança em favor do desastre, mais miraculoso parecerá o ato que resulta na liberdade” (Hannah Arendt). À vista disso, apostamos que, perante a apatia da sociedade de massa potencializada pelas redes sociais, um dos grandes desafios é um poder político baseado no diálogo sincero, na liberdade, na igualdade e na capacidade humana de agir e participar de forma coletiva.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

Artigos Recentes

102 COMENTÁRIOS

  1. Impecável! Todos nós podemos e devemos discutir política, que não deveria ser tratada como polêmica, e sim como um assunto relevante que não fomente desavenças nos almoços de domingo. E como MUITO bem colocado, o melhor caminho é sempre educar para superar essa síndrome da ignorância que circunda a sociedade, pois como já propõe Allan Kardec, “A educação, se bem compreendida, é a chave do progresso moral”. Obrigada pela chuva de sabedoria 🙂

    • Olá, Clara, tudo bem com você? Perfeito sua análise. Concordo plenamente com suas observações. Agradeço imensamente sua leitura e grande ajuda na divulgação dos textos. Obrigado e Deus ilumine todos seus passos.

  2. Acho que principalmente nos tempos em que estamos vivendo é de extrema importância essa comunicação a respeito da política, muitos pontos de vista são baseados na mídia, por notícias falsas que não correspondem com a realidade ou que são distorcidas e isso tem que ser debatido, questionado.. Excelente texto, trás uma reflexão muito útil para o momento!

    • Obrigado, Mileidy. O diálogo é o caminho mais frutuoso para o crescimento do nosso país. Agradecemos a leitura e divulgação dos textos. Forte abraço e seja feliz. Att, Profeta.

  3. Reflexão excelente. A democracia é o único caminho. Precisamos educar os mais jovens no caminho do respeito pelas instituições. Parabéns ao autor e portal.

  4. Neutralidade é um lugar que não existe! Discutir política não deve ser visto como um tabu. Precisamos evoluir muito, sobretudo quando se trata da qualidade da discussão em termos de conteúdo e diálogo. Sua reflexão, profeta, me lembra os dizeres de Paulo Freire: “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de revelar o compromisso. Este medo quase sempre resulta de um ‘compromisso’ contra os homens, contra sua humanização, por parte dos que se dizem neutros.” Que a educação seja sempre um ato político e, principalmente, libertadora!

    • Olá, Taynara, tudo bem? Muito obrigado pelo carinho, comentário e leitura do texto. Agradecemos também a partilha dos seus conhecimentos. Concordo plenamente que a Educação é o caminho para a prosperidade em todos os sentidos. Somente com conhecimento podemos criar uma pária livre, justa e solidária. Grande e forte abraço

  5. Texto mais do que necessário e que todos tinham que ler principalmente no momento em que estamos vivendo agora. Tudo é política e precisa sim ser discutido com cautela e atenção exatamente como você nos ensinou em sala de aula!!!!

    • Muito obrigado, Natália. Felizes pela leitura e comentário. Feliz também que lembra das aulas de Filosofia no segundo ano do Ensino Médio. Desejo toda sorte do mundo. Grande abraço.

  6. Excelente texto. Nos dias atuais quando se pensa em falar sobre política, na mente só vem às discussões extremas e palavras de ódio entre os que não tem a mesma opinião, falta respeito das diferentes opiniões.
    Uma importante reflexão sobre a importância da política na sociedade, algo que vai fui além de discussões e ódio.

    • Olá, Bruna. Obrigado pelo sábio comentário. O debate maduro faz parte das boas democracias. Pensar diferente é saudável. Inimigos devem ser a fome, a miséria, a falta de saúde, etc. Grande e fraterno abraço.

  7. Texto belíssimo. Precisamos compreender o patriotismo dentro dos limites constitucionais. Também acredito que a Educação é um ótimo caminho para uma educação cívica e democrática. Parabéns pela dedicação de sempre 👏

    • Obrigado, Loreane. Agradecemos sua leitura e comentário. Concordo plenamente com sua observação. Baseados na CF e na Educação podemos construir uma nação melhor para todos. Forte abraço

  8. Que reflexão sensata e necessária acerca do momento político que vivemos. Claro, não esperava nada menos do autor. O diálogo é muito importante para avançarmos em busca de uma sociedade melhor. Por isso, precisamos (re)aprender a fazer concessões, pois a democracia é movimento, mas não pode e nem deve ser só o meu movimento, precisa ser plural. Entretanto, não podemos fazer concessões contra a CF e muito menos os direitos humanos, conforme muito bem apontado pelo autor. Parabéns pelo brilhante texto!

    • Muito obrigado, Leandro Prates. Muito sensatas suas colocações. Fora do diálogo e da CF não existe democracia. Agradecemos imensamente sua leitura e carinho. Fraterno abraço e uma semana abençoada.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada