Política se discute?

Política
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A política é uma questão muito séria para ser deixada apenas para uma parte do fanatismo que impera nas redes

Por Edson Kretle

Querido leitor, acredito que muitas vezes já ouviu frases como: “Não quero mais saber de política”; “Política é coisa suja”; “Todo político é igual”; “Todos os partidos são iguais”. Nessa linha de raciocínio, algumas pessoas repetem e insistem no famoso bordão de que “política, futebol e religião não se discutem”.

Porém, para início de nossa conversa, cito uma célebre frase do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que diz que “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. Logo, conversar sobre política se torna urgente em um momento no qual falamos de política o tempo todo, mas não conseguimos dialogar com quem pensa diferente de nós. Contudo, sem diálogo não há pluralidade de ideias. Sem pluralidade de ideias não existe política e sem política somente nos resta o terrível horizonte da barbárie.

Sob essa ótica, para uma parcela da sociedade, o uso das redes sociais tornou a política uma paixão, ou melhor, uma seita. Por esse motivo, grande parte do debate em torno de problemas estruturais do País apenas se converte em uma arena das paixões infantis, em que a superficialidade dos problemas é a regra. Infelizmente, essas atitudes têm nos levado à descrença para com a democracia e aos riscos de entradas sombrias pelas portas do autoritarismo. 

Se as questões políticas não são compreendidas de modo mais racional e menos passional, nos situamos diante do risco da solução fácil do maniqueísmo político, que divide a sociedade em grupos. Essa separação simplista entre bons e maus, justos e injustos, corruptos e santos encobre problemas mais profundos acerca dos fundamentos de nossa vida social e política. Assim sendo, sempre é tempo adequado para pensarmos nos pactos e nas promessas que celebramos em torno da Constituição e dos fundamentos do Estado democrático. Mais importante ainda é compreender e fomentar a necessidade da confiança mútua entre os cidadãos acerca de consensos mínimos, a fim de estabelecer uma convivência coletiva que se alicerce cada vez mais em direitos civis, políticos e sociais, os quais não excluam ninguém, afinal, somente assim poderá ser uma verdadeira República.

Mas como criar na sociedade essa consciência política, meu querido leitor? Em minha opinião, duas possíveis respostas podem ser encontradas em dois grandes pensadores: Montesquieu e Habermas. O francês Montesquieu (1689-1755), lá no século XVIII, já tinha consciência dos desafios de se estabelecer uma república e o sistema político que referimos acima. Para ele, a Educação é um poderoso e salutar instrumento capaz de inspirar o amor à pátria. 

Ou seja, pela Educação é possível fomentar a construção de um cidadão virtuoso, tolerante a ideias contrárias e com um desejo de agir tendo em vista o bem comum, mesmo quando esse bem esteja em oposição aos seus interesses individuais. Já de acordo com o filósofo alemão Habermas (1929-), o patriotismo nos tempos atuais deve ser constitucional. Em outras palavras, devemos promover uma identidade nacional, mas sem radicalismos e extremismos que unicamente contribuem para o aumento do ódio e da divisão entre nós. Assim sendo, o verdadeiro patriotismo necessita ser nutrido pelos valores éticos e constitucionais que assegurem a integração, a inclusão, o diálogo, os Direitos Humanos e a solidariedade social entre os cidadãos. 

Nunca foi tão atual a frase que circula na internet, de autoria desconhecida, que diz: “Éramos todos humanos, até que a raça nos desligou. A religião nos separou. A política nos dividiu. O dinheiro nos classificou”. Portanto, façamos diferente, pois a política é uma questão muito séria para ser deixada apenas para uma parte do fanatismo que impera nas redes. Somente dessa forma poderemos recuperar a dignidade da política.

Por fim, nos fica a certeza de que a promessa de uma política pautada nesses princípios consiste na consciência de que, “com quanto mais força penderem os pratos da balança em favor do desastre, mais miraculoso parecerá o ato que resulta na liberdade” (Hannah Arendt). À vista disso, apostamos que, perante a apatia da sociedade de massa potencializada pelas redes sociais, um dos grandes desafios é um poder político baseado no diálogo sincero, na liberdade, na igualdade e na capacidade humana de agir e participar de forma coletiva.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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