“Errar é humano.” Perdoar também?

Perdão
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A cultura do perdão é uma tarefa diária, tendo em vista a nossa saúde mental e física, além do bem-estar social

Por Edson Kretle

Em tempos marcados por tantos discursos de ódio, intolerância e brigas por coisas fúteis, neste ensaio convido o leitor a refletir sobre o perdão. Muitas vezes, magoamos e somos magoados por aqueles que nos cercam, mas apenas podemos reatar laços de fraternidade e seguir em paz com a vida se desenvolvermos a capacidade de perdoar. Sabemos que essa virtude não é uma prática fácil, mas também não é impossível. Portanto, fomentar a cultura do perdão é uma tarefa diária, tendo em vista a nossa saúde mental e física, além do bem-estar social.

Em nosso dia a dia, com ou sem intenção, com atos e palavras ofendemos nosso próximo. Como ainda não temos uma máquina do tempo para desfazer o que fizemos, o perdão é o remédio para os constrangimentos que causamos uns aos outros. A filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) tem uma das mais belas definições sobre perdão, a qual gostaria de partilhar com o amigo leitor. Ela diz: Se não fôssemos perdoados, liberados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas de suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço”.

O ato de perdoar vem acompanhado de uma promessa

Como os resultados dos nossos atos são imprevisíveis, Arendt também aponta que, ao lado do perdão, caminha o poder de prometer. Isto é, não basta pedir ou implorar perdão pelos erros, é preciso estar disposto a fazer uma promessa de não praticar novamente os mesmos ou novos deslizes. Nesse sentido, para sermos perdoados, precisamos do profundo desejo de “não pecar mais” (cf. Jo 8,11). Além de um verdadeiro propósito de mudança, a pessoa deve ser responsabilizada pelos atos que cometeu, ou seja, deve haver reparação dos atos praticados, pois assim se restabelece a justiça.

Perdoar é libertar a alma 

Os estudos da psicologia atestam que, quando não perdoamos o semelhante, nossa energia vital é direcionada o tempo todo para o ato de vingança. Ou seja, somos sugados pela mágoa, pela raiva e pelo ressentimento, o que nos causa insônia, estresse e depressão. 

Nesse sentido, vale a pena resgatar a sabedoria de Shakespeare (1564-1616): “Guardar mágoa é como tomar veneno e esperar que o outro morra”. Contraintuitivamente, a partir do momento que perdoamos quem nos ofendeu, somos libertados da raiva e, no lugar de sentimentos negativos, colocamos emoções positivas que impulsionam nossa existência. Em harmonia com esse modo de pensar, o poeta brasileiro Mario Quintana (1906-1994) nos ensina a “perdoar não porque quem nos ofende merece perdão, mas porque merecemos paz”.

Desculpar-se
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Outro elemento importante na dimensão do perdão é reconhecer que somos todos falhos e não devemos condenar quem nos ofendeu apenas porque as formas de ofensas são diferentes das nossas. Em sintonia com isso, vale lembrar que um dos últimos atos de Jesus antes de morrer foi pedir que Deus perdoasse os humanos, porque Ele, sendo Deus, tem a capacidade de perdoar nossas falhas, porque compreende a imensidão da fraqueza humana (cf. Lc 23,34). Dessa forma, o perdão divino nos harmoniza com Deus. Do mesmo modo, o perdão humano, quando exercido com sinceridade, caridade e paciência, nos reconcilia com o próximo.

O perdão é um exercício diário 

Penso que o leitor concorde comigo que, à medida que exercitamos o perdão, a salvação se estabelece agora, neste tempo e espaço. Uma das melhores maneiras para continuarmos nessa direção é usar nossa energia para acender as luzes do perdão, quando as trevas do rancor assombrarem nossas almas. Se construímos esse modelo de mundo de punição, vingança e culpa, também podemos restaurá-lo com mais amor e perdão. Se duvidarmos disso, duvidamos do próprio ser humano e, consequentemente, toda esperança de novos céus e nova terra (cf. Is 65,17) ficaria sem sentido e condenada ao fracasso.

Na vida, somos eternos aprendizes. Vale lembrar que ninguém inicia uma caminhada desejando retornar de onde partiu. Por isso, o perdão é um exercício diário de amor e paciência, no qual progredimos a cada dia ao tornar esse dom um hábito pautado na prática de “escrever os benefícios em bronze e as injúrias no ar” (Galileu Galilei, 1564-1642).


Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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