Vivemos na sociedade do ódio?

ódio
Pixabay.com/Lars Nissen

As redes sociais têm sido um território fértil para a disseminação do ódio. Você sabe como combatê-lo?

Por Edson Kretle

Estamos cada vez mais isolados e incapazes de conviver uns com os outros, apesar das milhares de conexões possíveis na era digital. Estamos nos tornando pessoas fechadas em si mesmas que concebem o mundo como se suas certezas fossem a verdade absoluta sobre tudo e todos.

Estamos vazios de fraternidade e repletos de antipatia, tendo em vista que o vazio de um é ocupado por outro, pois, segundo Bertrand Russell (1872-1970): “O coração humano, tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que para a fraternidade”; por isso o ódio se torna mais presente em nosso cotidiano.

De uma fechada no trânsito à lentidão dos nossos smartphones e às questões políticas e sociais, tudo se converte em motivos de ira. Será mesmo que é essa sociedade impaciente que queremos construir para nós e para nossos filhos e netos, estimado leitor? Tenho certeza de que não. Logo, o convido para uma conversa sobre a cultura do ódio, afinal, o diálogo é o primeiro passo para compreendermos os trilhos errados que o trem de nossa época tem seguido.

Somos agentes do ódio nas redes sociais?

Sabemos que, do ponto de vista da história humana, a prática do ódio não é exclusividade de nosso tempo, mas vem de longa data, que, por economia da exposição, não convém tratar aqui. Porém, isso não significa que nossa época seja perfeita, que hoje somos civilizados e que a irritação é coisa do passado. Segundo o historiador e filósofo Leandro Karnal (1963-), “achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. Por consequência, é um grande equívoco pensar que nossas famílias, parentes e amigos são os maiores exemplos de ternura e docilidade, enquanto os demais são pessoas violentas e rancorosas.

redes sociais
Pexels.com/ Andrea Piacquadio

As redes sociais têm sido um território fértil para a disseminação do ódio. Acredito que os benefícios das redes sociais podem ser muito positivos, contudo, poucos sabem que as informações e os dados que chegam até nós por elas são manipulados por algoritmos.

Frequentemente, o que vemos e ouvimos forma uma visão de mundo limitada, e o debate maduro de ideias, que é essencial para a democracia, se torna quase impossível (sobre isso, se ainda não assistiu, uma boa dica ao amigo leitor é conferir o documentário O dilema das redes). Portanto, com o engajamento das pessoas nas redes sociais, percebemos também crescentes crimes de racismo, pedofilia, intolerância religiosa, homofobia, cyberbullying e outros. Vale enfatizar que a liberdade de expressão não é licença para cometer crimes.

Como se combate o ódio?

Muitos anos atrás, porém muito atual, Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) escreveu um dos mais belos textos em que aborda os males de uma das paixões mais nocivas ao ser humano. Para ele, o sentimento de ódio contém um grande perigo social, dado que, dominados por essa paixão, ficamos propensos a espalhar ofensas, rivalidades, desunião e destruição mútua. Assim sendo, o governo do ódio faz desaparecer a generosidade entre nós. Por causa disso, o filósofo orienta que “o melhor é refutar imediatamente o primeiro momento da ira, combater contra suas sementes e não permitir incidir na ira”. Com efeito, se ela começou a nos modificar, fica difícil voltar a ser saudável, pois não existe razão onde foi permitida a entrada da paixão, dando-lhe algum direito pela nossa própria vontade. Ela fará tudo quanto queira, não quanto lhe for permitido”.

Tenho certeza de que você e a maioria da população defendem que toda forma de ódio deve ser condenada, entretanto, Buda ensina que “jamais, em todo mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor”.

Portanto, responder aos discursos de ódio com um ódio ainda maior só nos faz reforçar esse ciclo vicioso e violento. Nelson Mandela (1918-2013) nos alerta que “ninguém nasce odiando outro pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Sendo assim, meu nobre leitor, se o amor e o ódio nascem do convívio social, uma sociedade mais tolerante e pacífica depende do que estamos ensinando e aprendendo uns com os outros.

Por fim, a linha entre amor e ódio é tênue, porém, se existe ódio, é porque ainda não perdemos a capacidade de amar, pois uma conhecida frase usada por muitos escritores diz que “o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença”. Afinal de contas, o preço da liberdade, da igualdade e do amor é a eterna vigilância, porque nos assuntos humanos tudo é possível… Até a banalização do ódio.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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39 COMENTÁRIOS

  1. Realmente um tema extremamente necessário e que toca profundamente. Em tempos de tanta intolerância, negacionismo e conflito é muito fácil deixar-se levar pelas discussões, sair da razão e dar espaço para a paixão em forma de ódio.
    Guardarei esse texto para refletir mais vezes sobre ele, obrigada!

  2. Excelente texto e reflexão. Assunto esse que será cada vez mais discutido em nossa sociedade visto a necessidade de lidarmos com os desafios do desenvolvimento humano em meio ao ódio disseminado por muitos. Uma dificuldade a mais para as civilizações, mas que precisa ser adequadamente tratada para que não gere problemas irreversíveis ao futuro próspero que desejamos. Parabéns pela abordagem! Precisamos de mais debates assim.

  3. Como sempre um tema extremamente necessário. É muito fácil compartilhar nossas opiniões na internet e muitas vezes as pessoas confundem isso com uma liberdade de dizer tudo sem pensar nas consequências.
    Otimo texto!!

    • Olá, Nathália, tudo bem? Muito obrigado pelo comentário. Ficamos felizes que o texto lhe possibilitou essas boas reflexões.

      Grande e forte abraço

  4. Texto magnífico assim como todas as reflexões do Edson, que Deus abençoe sua vida, e que você continue compartilhando seus textos conosco, bela leitura que toca na alma.

  5. Tratar ódio com ódio é como querer apagar fogo com gasolina. O curioso é que as vezes parece que o ódio já nasce com a gente. Mas você está totalmente certo, somos ensinados a odiar.

  6. Ótima reflexão Edson.
    Como o Dale Carnegie diz em seu livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, o ser humano não gosta de ouvir que está errado. Agimos sobre nossas convicções e raramente paramos para duvidar sobre nossas “verdades” mais absolutas. Quando o ser humano se depara com algo que contrapõe suas “verdades incontestáveis” ele parte para a ofensa e a chacota. E o problema das discussões na internet é que as maioria das pessoas não querem encontrar a verdade, mas molda-la para que se encaixe na opinião individual. Já fui muito assim, hoje tento apenas contemplar cada ângulo da história. Gosto de ouvir pontos opostos ao meu, assim posso manter opiniões opostas na minha cabeça (tal prática é muito útil para solução de problemas e criatividade!). Mesmo assim, pobre de mim, e de cada um de nós, estamos muito longe de saber de tudo… Dizem que a sabedoria começa quando você reconhece que não sabe de nada.
    Fica a reflexão que o texto me inspirou, espero possa ter sido de proveito para qualquer pessoa que teve paciência de ter lido até aqui kk.

    • Ola, Henrique. Muito obrigado pelo carinho e excelente reflexão. Fico feliz que o texto te possibilitou essas belas reflexões. Obrigado pelo carinho e leitura de sempre. Um grande e forte abraço

  7. Muito legal seu texto, bem reflexivo!!
    Essas coisas de tecnologia estão deixando o mundo muito acelerado, o que leva ao estresse e à ansiedade, falo por experiência própria. Sobre o documentário “o dilema das redes”, achei super interessante o fato dos algoritmos – que por tese buscam selecionar conteúdos interessantes para cada tipo de usuário – limitam a reforçar o ponto de vista do usuário em vez de mostrar outros caminhos, umas vez que o propósito é eliminar o inesperado, o incômodo e o oposto para manter a pessoa no feed

    • Olá, meu querido Fabrício, tudo bem? Perfeita sua análise. Agradecidos pela partilha. Aos poucos vamos aprendendo lidar com essas novas tecnologias. Fraterno abraço

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