Na manjedoura reside o espírito natalino

Manjedoura
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Por que muitos não vivenciam mais o verdadeiro sentido da manjedoura?

Por Edson Kretle

Estimado leitor, o convido para mais uma conversa sobre o sentido do nascimento do Menino Deus na manjedoura de Belém. Acredito que, assim como eu, você também compreende o tempo do Natal como um período de união, de família, de afetos e de solidariedade. Nesse sentido, na manjedoura reside o espírito natalino e esse acontecimento revela ricos ensinamentos para um mundo vazio de propósitos. Vejamos.

O Natal deveria ser considerado uma forma popular para representar o renascimento, o começo de uma nova vida com Jesus no coração. Entretanto, por que muitos não vivenciam mais o verdadeiro sentido da manjedoura? Podemos explicar esse esquecimento voltando um pouco mais no tempo, quando a Revolução Industrial do início do século XIX possibilitou um aumento expressivo na produção de bens de consumo. Hoje, com as novas tecnologias, essa capacidade está ainda mais avançada.

Com isso, por meio da publicidade, surge a necessidade de incentivar o consumo em massa através de certos modelos de celulares, roupas, carros, músicas, filmes e até da arte. Esse comportamento padronizado, potencializador de uma sociedade consumista e imediatista, “demonstra que não há liberdade nessa sociedade. Onde todos fazem a mesma coisa, ninguém age com liberdade, mesmo que ninguém seja diretamente forçado ou compelido” (Hannah Arendt, 1906-1975).

Onde colocamos nosso coração?

Diante disso, surgem algumas perguntas pertinentes: em corações tão abarrotados e preocupados com as superficialidades consumistas, ainda há espaço para Jesus entrar? A “sociedade do desejo” está preparada para o reinado de um Rei que nasce envolto em faixas e em um colchão de palhas secas? Isso não significa que não devemos trabalhar e conquistar nossas metas materiais, mas que os bens materiais deste mundo devem nos servir, jamais o contrário. Pois, onde a riqueza em si se torna um ídolo, brota uma civilização fundada no desespero de encontrar um sentido para a vida, e nessa busca cega apenas conseguimos aumentar e aprofundar ainda mais o vazio que assola nossa alma. Portanto, a simplicidade da manjedoura questiona esse culto cego à riqueza e nos faz escolher se nosso Absoluto é Deus ou a “Riqueza”, “porque onde está o vosso tesouro, aí estará também vosso coração” (cf. Mt 6,21).

Natal
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O leitor deve estar se perguntando: somos humanos falhos, então, como podemos superar essa forma de vida? Mesmo conscientes de todas nossas limitações, penso que Maria e José fornecem um grande exemplo para compreendermos que o projeto de um mundo melhor e pessoas melhores é uma caminhada repleta de dificuldades, renúncias e muitos “nãos”. Em uma sociedade carente de esperança, os pais do Menino Deus nos mostram que devemos acreditar sempre em nossos projetos pessoais e coletivos, e não simplesmente desistir quando a primeira porta se fecha. Que os homens e as mulheres não se esqueçam de que, por mais longas e escuras que sejam as noites do inverno, os dias longos e quentes de verão também chegam. Assim sendo, não devemos esquecer que, entre nós, a esperança sempre pode mais que o medo.

A fé sem obras é morta (São Paulo)

Vale destacar também a figura dos Reis Magos (cf. Mt, 2,1-12). Eles nos ensinam que não basta apenas conhecer qual é o caminho justo, já que Herodes e seus assessores conheciam muito bem as Escrituras. Nesse sentido, São Francisco de Assis (1181-1226) nos lembra: “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”. Por isso, mais importante do que os discursos comoventes em nossas ceias de Natal, é urgente sair do egoísmo e, por mais árduo que seja o caminho a ser percorrido, devemos ser sempre sinal de luz, ternura e presença para nossos familiares e amigos, não apenas uma vez por ano. O excesso de um modo de vida centrado apenas em si mesmo não seria uma nova espécie de Herodes, que nos impede de enxergar a Estrela do Oriente? Assim como os magos, o Natal também acontece quando fazemos do nosso coração uma manjedoura e oferecemos ao próximo todo nosso ser como nosso presente mais valioso.

Por fim, o Menino Deus nos faz refletir sobre a soberba humana e nossas crescentes vaidades. O exemplo de Belém nos convoca a abrir um pouco a mão do mundo das aparências para conseguirmos priorizar outras coisas. Não sejamos como aquelas hospedarias que se mantiveram com as portas trancadas a sete chaves, mas abramos a porta do nosso coração e deixemos o Menino Deus entrar. Enfim, um pisca-pisca isolado não consegue iluminar nada, assim como o coração humano solitário, mas juntos podemos levar luz onde há as trevas do medo e da indiferença. Sem sombra de dúvidas, essa é a maior e mais urgente revolução que somos capazes de fazer.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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