Filosofia na sociedade do imediatismo
e dos tutoriais

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Por Edson Kretle

Querido(a) leitor(a), começo este texto lhe perguntando: existe espaço para a Filosofia na era do imediatismo e da busca por receitas prontas nos tutoriais? Parece que não queremos mais pensar, sendo que o pensar é a gênese da reflexão filosófica. A filosofia nasceu e ainda continua como uma tentativa de explicar as perguntas cruciais da existência humana. Os problemas existem e muitos deles podem ser pensados pela filosofia, os quais requerem que cada ser humano não renuncie ao pensar próprio. Entre tantas perguntas, algumas são: o que posso saber? O que é o certo? Deus existe ou existiríamos apenas nós neste universo? Qual o sentido da vida? O que é a morte? O ser humano é livre? A ciência pode nos dar certezas? O que é a verdade? Quando podemos dizer que um Estado é democrático?

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Motivados por estas indagações, muitos filósofos buscaram e ainda buscam diferentes respostas para os problemas específicos de suas épocas. As soluções elaboradas para as questões supracitadas marcaram a história e formaram muitos dos paradigmas do nosso pensamento. Portanto, estudar sobre filosofia é saber o que os filósofos disseram e, a partir disso, fazer os acréscimos e as atualizações necessários, pois nenhum sistema de pensamento pode abarcar a totalidade da realidade e a complexidade que envolve a existência humana. Nesse sentido, “não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar” (Kant), ou seja, com ela “reaprendemos a ver o mundo” (Merleau-Ponty).

Segundo Platão, “podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Platão já alertava que o real motivo de esquecer quem somos deve-se ao fato de que é extremamente confortável a escuridão e o comodismo que tanto acalenta e tem presença nos corações e nas almas daqueles que detestam pensar por si mesmos. Por tais considerações, até entendemos por que muitos de nós se perderam ou se perderão na luta por adentrar cada dia mais no caminho sem volta das cavernas contemporâneas.

Por que teclamos de mais e amamos de menos?

Nesse sentido, corremos o grande risco de nos tornarmos seres “apensantes”. Conceituo: neologismo criado por esse que vos escreve; adjetivo: 1. relativo ao não pensar, aquele que não sabe e se contenta em nada saber ou saber mal o que sabe. O elemento complicador é que podemos ser “apensantes” que acreditam que farão as mudanças sociais e políticas do país deitados no confortável sofá de nossas salas. Para piorar esse cenário, nos tornamos uma geração de dependentes tecnológicos de celulares e redes sociais, com postagens de um mundo com relações que não existem. O problema é que passamos a acreditar nessas mentiras e nos encontramos na cega crença de que o preenchimento do vazio que assola o nosso peito será preenchido pelos likes, pelas reações e comentários do Instagram, Twitter, TikTok, Facebook e companhia.

Além disso, é fundamental problematizar o modelo neoliberal que reduziu a felicidade ao dinheiro e à fama. Portanto, por mais difícil que seja resistir à serpente (demônio) do consumismo, não estude ou trabalhe pensando no novo lançamento do iPhone, no tênis descolado ou na ida à Disney, afinal, também existe vida antes de tudo isso. Se discorda dessa reflexão, responda às questões: por que ganhamos mais e temos cada vez menos tempo para desfrutar com quem amamos? Por que temos casas maiores e famílias cada vez menores? Por que consumimos demais e reduzimos a presença do outro? E a questão mais crucial: por que teclamos de mais e amamos de menos?

Deus compreende a imensidão da ignorância humana

Como não somos perfeitos, mas filhos do Perfeito, precisamos extrair dos nossos desacertos existenciais uma possibilidade de que aquilo que tem devastado nossa alma e nossa vida coletiva se transforme em sementes de uma “vida digna de ser vivida” (Sócrates). Vale ressaltar que a ignorância nossa do dia a dia é uma realidade difícil de reconhecer, mas é justamente esse primeiro passo que nos guiará na busca pelas nossas próprias respostas. Nossas escolhas são como sementes e a qualidade dos frutos do amanhã dependerá do que semeamos hoje. Por fim, da sabedoria do Divino Mestre expressa no: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!” (cf. Lucas 23,34), nasce a certeza de que Deus perdoa os nossos erros e os dos nossos semelhantes, porque somente Ele compreende a imensidão da ignorância humana.

Edson Kretle é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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