É possível ensinar a arte de amar?

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Não espere um manual com prescrições, mas preste atenção a estes três exercícios diários: amadurecimento, paciência e diálogo

Por Edson Kretle

Estimado leitor, já vimos em nosso cotidiano muitos filmes, canções, livros e propagandas que abordam o tema do amor. Como esse assunto é recorrente em nossas vidas, imagino que você já saiba da importância desse sagrado sentimento em nossa existência. Não desejo aqui lançar nenhuma novidade sobre um assunto repleto de teorias e formas. Minha pretensão é infinitamente menor. Não espere “receitas prontas”, mas apenas uma reflexão sobre a necessidade de encontrarmos algumas práticas que germinem o terreno fértil que o amor exige para ser cultivado em nosso coração. 

O pensador alemão Erick Fromm (1900-1980) aborda o problema do desaparecimento do amor em nossa época. Segundo ele, as relações entre amigos, cônjuges, pais, filhos e cidadãos não são mais acompanhadas de afetos positivos, tais como a solicitude, a ternura e a amizade. Ao invés disso, são crescentes as formas de pseudoamor, ou, sendo mais fiel ao pensamento do autor, as formas de desintegração do amor. De maneira muito dura, Fromm nos alerta: “Ao mesmo tempo que todos tentam estar próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa”. 

Erick Fromm continua e nos adverte de que “o amor individual não pode ser atingido sem a capacidade de amar ao próximo, sem verdadeira humildade, coragem, fé e disciplina. Numa cultura em que tais qualidades são raras, o alcance da capacidade de amar deve permanecer uma conquista rara”. Será mesmo? Vamos testar essa afirmação, querido leitor? Pare a leitura por um minuto e pergunte a si mesmo: “Quantas pessoas eu conheço que verdadeiramente amam?”. Espero que consiga encontrar ao seu redor ao menos dez pessoas, assim esse sentimento jamais será destruído (cf. Gn 18,32).

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Passemos agora a tratar do tema do amor como uma arte, e, como toda arte, só podemos aprendê-la praticando-a. Não espere um manual com prescrições sobre a difícil arte de amar, mas listo três exercícios diários até o fim de nossos dias: amadurecimento, paciência e diálogo. Isso porque, na “escola do amor”, a disciplina é constante. Passemos aos exercícios.

Na arte de amar, torna-se muito importante a busca pelo amadurecimento. Essa atitude nos torna pessoas mais conscientes de nós mesmos, dos nossos vícios e virtudes. Hoje em dia, muitos relacionamentos carecem dessa capacidade, tornando-se apenas uma solidão compartilhada sob o mesmo teto. Portanto, a maturidade nos traz o domínio de si, e somente assim podemos abandonar o narcisismo, ir ao encontro do próximo e amá-lo.

A paciência é outro elemento de extrema importância numa época “em que o mundo gira cada vez mais veloz”. Paciência para compreender que cada pessoa é única, e ela pensa, gosta e age diferente de nós. É muito mais fácil conviver com gente paciente, pois é dócil e consegue lidar melhor com seus próprios erros e com os dos outros. Sabe perdoar e recomeçar a cada dia. Desse jeito, é impossível não brotar amor desse comportamento tão raro hoje em dia. Ser paciente já é um exemplo vivo de amor neste “mundo que espera de nós um pouco mais de paciência” (Lenine).

Em terceiro lugar, mas no mesmo nível de importância em nossa tarefa, temos o diálogo. Num tempo em que as redes sociais nos aprisionam em bolhas, vivemos cada vez mais isolados, sem capacidade de diálogo com os filhos, cônjuges e semelhantes. Quem ama consegue se abrir para compreender o lado do outro. Nada é tão prejudicial para aprendermos a arte de amar quanto a falta de diálogo.

Para Jesus de Nazaré, amar a Deus é o mesmo que amar o próximo (cf. Lc 10,25-37). Nessa mesma linha, Santo Agostinho nos orienta: “Amar a Deus significa amar o Amor, mas não se pode amar o Amor se não se ama quem ama. O homem não pode amar a Deus se não amar o outro homem”. Assim sendo, você e eu somos convidados a orientar nossa vida no perfeito equilíbrio que nasce da inseparável relação entre maturidade, paciência e diálogo. Dessa forma, cumpriremos o papel de fazermos de nosso coração uma terra fértil, porque, “se não temos o amor, nós nada somos” (cf. 1Cor 13,2).

Por fim, nos resta o difícil e complexo desafio de cultivar em nós a capacidade que poucos possuem, de primeiro amar sem se preocupar em ser amado. Eis nossa tarefa diária.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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