Como conviver na sociedade do desempenho que nos adoece?

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Saber sonhar é uma forma de viver a tranquilidade numa sociedade que sempre nos obriga a “ser” e a ter mais

Por Edson Kretle

Caro leitor, sabemos da importância de ter propósitos em nossa vida. Viver em busca de realizar projetos e sonhos nos faz ter forças para enfrentar os desafios do cotidiano. No entanto, o problema surge quando há cobrança externa e também quando exigimos muito de nós mesmos, criando angústia e ansiedade. Desde muito pequenos, somos ensinados que devemos estudar, ter um bom emprego, carro próprio, entre tantas outras coisas.

Para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, nossa era se tornou o século do desempenho. De acordo com ele, o resultado desse modo de vida tem aumentado doenças como a depressão, o Transtorno de Déficit de Atenção com síndrome de Hiperatividade (TDAH), o Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), a Síndrome de Burnout (SB), entre muitas outras. Com isso, se o século XX foi chamado, pelo pensador francês Michel Foucault, de sociedade disciplinar, hoje nos tornamos a sociedade do desempenho. Vivemos cobrando uns dos outros e de nós mesmos uma excelente atuação em tudo: academias, escolas, trabalho e relacionamentos. Todos os bons resultados são oferendas e preces aos deuses Facebook, Instagram e Twitter.

Nem super-homens nem super-mulheres

O mais curioso é que, nesse cenário, o ser humano explora a si mesmo e, de forma consciente, se torna vítima e agressor ao mesmo tempo. O poder e a arrogância humana geraram em nós a grande ilusão de que “tudo é possível”, de que “nascemos para vencer”, de que “somos especiais”, ou seja, de que tudo depende de “foco, força e fé”. Não são esses os muitos slogans que ouvimos nas escolas, fábricas e até igrejas? Tudo isso não seria desculpa para nos tornar escravos que odeiam a liberdade e que abraçam cada vez mais as grades da prisão?

Distante de nós e com a consciência em tantas outras coisas que não em nós mesmos, vivemos sempre cansados, melhor dizendo, exaustos, porque nossa mente não se desliga nem um minuto do trabalho, do dinheiro, dos projetos. Ou seja, nossa mente não se desliga do desempenho para sermos reconhecidos neste mundo de aparências. Essa pressão pelo desempenho é tão grande que, nos finais de semana, feriados ou até mesmo nas férias, nos sentimos culpados por sermos improdutivos e por não “estarmos fazendo nada”. Fomos adestrados a pensar que “vida boa” é apenas aquela em que estamos constantemente em atividade, em ação, sempre preocupados com alguma coisa que ainda não fizemos. Talvez isso ocorra como uma forma de fugirmos daquilo que não temos coragem de admitir: não somos super-homens, não somos super-mulheres.

De encontro às certezas desse tempo que vivemos, podemos resgatar o alerta do filósofo grego Aristóteles. Ele nos diz que apenas encontramos a serenidade na vida especulativa, isto é, naquela intimidade com nós mesmos que somente o pensamento nos proporciona. Isso não significa que a felicidade seja somente possível quando vivemos no isolamento, mas que conhecer a si mesmo é um excelente caminho na busca pela paz interior.

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Em busca do equilíbrio

Nesse mesmo sentido e com os ajustes da doutrina cristã, esse pensamento, na Idade Média, foi transformado por Tomás de Aquino na ideia de beatitude. Na vida terrena, ao “buscarmos as coisas do alto” (Colossenses 3,1), organizamos nossas prioridades e paixões por meio da virtude. Assim sendo, reduziremos os danos da sociedade do desempenho quando compreendermos que nossas energias psicofísicas não podem ser consumidas pelos afazeres mecânicos do nosso cotidiano. A ação e o espiritual são duas asas que elevam nossa existência apenas quando se equilibram entre si.

Em um país onde, de forma errada, pensamos que “o sol nasceu para poucos”, ao invés de valorizarmos a solidariedade, somos adestrados a enxergar o semelhante como um rival que deve ser vencido a qualquer custo. Estamos “futebolizando a vida”, ou seja, considerando que apenas vencer é o que importa. Se fulano conseguiu, eu também devo conseguir e, nessa sintonia, esquecemos que “cada um é cada um”, com suas vitórias, histórias e derrotas. Considerar a felicidade de forma mais coletiva e menos individualista é uma das alternativas para reduzirmos os impactos negativos da sociedade do desempenho.

Por fim, vale ressaltar que o fazer é importante, pois ele nos coloca em movimento. Não existem apenas pontos negativos em nossa sociedade de produção. O problema está nos excessos, como já nos alertou Aristóteles em sua conhecida frase “a virtude está no meio”. Portanto, nosso desafio é explicar na prática o que esse equilíbrio realmente quer dizer.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e num futuro melhor para todos.

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55 COMENTÁRIOS

  1. Mestre, como é adoecedora a sociedade do desempenho! Reconheço-me em cada pedaço do seu texto. Parabéns pelo texto, excelentes reflexões, do tipo que deveríamos nos lembrar todos os dias. Por aqui, sigo na busca de me conhecer, lutando contra essa super-mulher que é impossível…

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