Amizade em tempos de solidão

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Qual o valor da amizade numa época em que estamos conectados com centenas ou milhões de seguidores?

Por Edson Kretle

Somos marcados pela fragilidade e pela finitude. O que poderia ser um aspecto negativo da vida humana faz com que criemos vínculos de amor e de amizade para suportarmos o peso de nossa breve estadia na Terra. Nessa constante busca para vencermos essa condição frágil, encontramos nos amigos pessoas que preenchem nossa existência, pois certamente a vida seria impossível sem a presença desses anjos, quando duvidamos de nossas próprias forças e celebramos nossas conquistas. Por isso, estimado leitor, o convido para conversarmos sobre os laços de amizade, afinal, existem amigos mais próximos do que um irmão (cf. Pv 18,24).

Relembrar o valor da amizade se torna muito importante numa época de crescente solidão, de “amizades” virtuais que começam e terminam com um click. É fato que, mesmo conectados com centenas ou milhões de seguidores, nos sentimos sós. Infelizmente, afastamo-nos uns dos outros quando começamos a olhar nosso semelhante como se ele fosse um inimigo. Com isso, é muito comum que as relações e a construção de amizades sinceras sejam enfraquecidas diante do egoísmo deste tempo.

Como resultado, temos o esquecimento do outro como alguém crucial no florescer humano. Muitos problemas do país seriam reduzidos se fôssemos mais solidários e amigos entre nós. Certamente, com a presença desse sentimento, haveria menos violência, menos desigualdade social, menos mentiras e até mesmo menos injustiças, uma vez que “a amizade é superior a esta porque esta não é necessária entre amigos” (Aristóteles). Ou seja, amigos verdadeiros se compreendem e são sempre justos entre si, porque a equidade é a raiz que nutre a amizade.

A vida só faz sentido se compartilhada com amigos

Para o pensador Aristóteles (III a.C.), ser e ter amigos é uma das virtudes mais necessárias aos humanos, pois as coisas boas oferecidas pela vida, como saúde, alimentos, bens materiais, dinheiro e lazer, não fazem sentido sem amigos à volta. A amizade pode ser baseada na utilidade recíproca, no prazer ou no bem. As duas primeiras acabam quando o prazer e a utilidade cessam. No popular, são aquelas pessoas que se fazem próximas quando tudo em nossa vida está muito bem, mas desaparecem nos momentos dos fracassos e das tribulações. Confúcio traduziu esse tipo de “amizade” assim: “Para conhecermos os amigos, é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade”.

Já a amizade alicerçada no bem é a amizade verdadeira, pois se apoia na comunhão solidária entre pessoas, marcada por afetos positivos. Para ser mantida, exige cuidado, diálogo, perdão e, acima de tudo, bondade, pois, segundo o pensamento de La Boétie (1530-1563), “quando os maus se reúnem, há uma conspiração, não há sociedade. Não se amam, mas se temem. Não são amigos, mas cúmplices”.

É impossível uma sociedade educada nessas virtudes não ser feliz

A meu ver, querido leitor, é impossível uma sociedade educada nessas virtudes não se tornar um povo feliz e próspero em todos os sentidos. Outro aspecto muito importante e sempre atual na teoria aristotélica da amizade é que a amizade é uma virtude que adquirimos pelo hábito, ou seja, se aprende a se tornar um bom amigo a cada dia, quando se coloca em prática e se cultiva o amor pelo próximo.

Vivemos em um mundo polarizado e se torna muito comum nos aproximarmos de quem pensa igual a nós na política, nos costumes, no esporte, na religião etc. Isso é um grande engano, pois a amizade sincera não consiste numa identidade de opiniões.

Uma vez perguntaram ao filósofo Michel de Montaigne (1533-1592) por que ele amava seu melhor amigo, Étiene La Boétie, e ele prontamente respondeu: “Porque era ele; porque era eu”. Ou seja, apenas com respeito pelas diferenças entre amigos é que surge um nós. Portanto, o segredo da amizade duradoura nasce quando nos comportamos em relação ao amigo da mesma forma que agimos conosco. Sendo assim, a máxima da amizade pode ser resumida em “comportar-se com o amigo como consigo mesmo, vendo nele um outro eu” (Aristóteles).

“Vale mais perder tempo com os amigos que perder amigos com o tempo”

Por medidas sanitárias necessárias ao combate à Covid-19, estamos afastados de muitos de nossos amigos de trabalho, escola, igreja, futebol etc. Então, para colocarmos essa teoria em prática, sugiro, assim que possível, que o estimado leitor relembre alguns dos seus amigos e faça uma ligação, envie um áudio ou mande uma mensagem dando notícias suas e pedindo também. Não perca tempo, pois lhe asseguro que “vale mais perder tempo com os amigos que perder amigos com o tempo” (Autor desconhecido).

Por fim, caro leitor, acredite que ter amigos é uma forma de Deus cuidar todos os dias de você. O Papa João XXIII diz que, “se Deus criou sombras, é porque foi para melhor enfatizar a luz”. Sem dúvida, amigos são essas luzes, pois só superamos a terrível fragilidade da condição humana quando agimos juntos. Que a vida nos conceda o dom de muitas amizades, já que apenas dessa forma o reino de amor e respeito se estenderá sobre os desertos áridos da solidão.

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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63 COMENTÁRIOS

  1. Que texto incrível! Como é bom poder contar com sua amizade e seus ensinamentos, querido Edson!
    Gostei da sugestão de enviar mensagens aos amigos, mesmos afastados devido às medidas sanitárias de combate ao covid-19, amigos são como estrelas, que iluminam nossa vida, mesmo que de longe. E, em tempos tão turbulentos como os que estamos vivenciando, nada melhor que relembrar o sentido de algumas amizades. Afinal, amigos tornam as risadas mais altas, as conversas mais gostosas e a vida mais feliz!
    Grande abraço, professor!

  2. Que mensagem inspiradora!
    Retomando uma ideia que você trouxe sobre a prática do amor, menciono um autor que muito admiro, C.S. Lewis, que diz que a melhor forma de aprender a amar o próximo é agindo como se já amasse. E eu não poderia concordar mais. Aprendemos a amar desde que estejamos cotidianamente empenhados nessa obra.
    Ainda mencionando Lewis, deixo uma citação de uma obra excelente (“Os quatro amores”) para inspira-lo:
    “A Amizade é desnecessária – como a filosofia, como a arte, como o próprio universo (pois Deus não precisava criar). Ela não tem valor de sobrevivência; ela é, antes, uma das coisas que dão valor à sobrevivência.”

  3. Texto extremamente necessário nesse periodo que estamos vivendo. Mesmo sem perceber estamos nos afastando demais dos nossos amigos na pandemia e o universo digital acaba sendo muito cansativo mentalmente exigindo um esforço maior pra fortalecer nossas amizades. É realmente algo a se pensar.

    • Olá, Nathália, muito obrigado pela leitura e retorno. Feliz que o texto lhe possibilitou extrair essas importantes reflexões sobre o nosso tempo e sobre um tema tão importante como a amizade.

      Forte abraço e Deus abençoe seus sonhos.

  4. Olá, Julio, muito obrigado pela leitura e retorno sobre o texto. Agradecemos sua leitura e ajuda na divulgação dos textos. Forte abraço e felicidades. Saudades, meu amigo

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