A luz da ciência em tempos sombrios

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Por Edson Kretle

Aposto que, assim como eu, quando você entrou na escola aprendeu bem cedo, nas aulas de Ciências, que pelo conhecimento poderíamos compreender melhor a natureza, os seres vivos e, ao mesmo tempo, criar um mundo excelente para todos. Entretanto, em pleno século XXI essa confiança na ciência está abalada e pode ser um modo de pensar que, se não for questionado, permanecerá conosco por muito tempo.

Hoje em dia, percebemos uma grande oposição à ciência e à tecnologia, que são vistas como rivais ou até como algo demoníaco, especialmente quando o tema é saúde. Diante de um tema muito atual, convido o amigo leitor a caminhar um pouco comigo nestas linhas e, talvez, no fim do texto, concordar ou não com meus argumentos.

No século XVII aconteceram grandes mudanças sociais, econômicas, políticas e religiosas. Também nesse tempo foi desenvolvido o método científico baseado na capacidade racional do homem. É nesse contexto que o pensador inglês Francis Bacon propõe o lema que se tornaria o slogan desse período: “saber é poder”. Ou seja, o conhecimento nos possibilita compreender a ordem da natureza, as relações entre os homens, e nos liberta dos ídolos (fantasma, simulacro) dos preconceitos e das falsas noções sobre a realidade.

Nesse contexto, é sempre atual uma antiga mensagem que o filósofo grego Hipócrates deixou: “Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorância”.

É preciso vigilância

Nessa mesma sintonia, o pensador grego Platão nos diz que “podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Para ele, o real motivo de esquecer quem nós somos e recusar a luz do conhecimento deve-se ao fato de que a escuridão e o comodismo são extremamente confortáveis. Isso porque eles acalentam e têm presença garantida nos corações e nas almas daqueles que detestam pensar por si mesmos e permanecem amantes do atraso, das fake news (notícias falsas) e das teorias da conspiração. Tais considerações nos lembram de que precisamos ser vigilantes para evitar o grande risco de adentrarmos a cada dia mais no caminho sombrio da caverna do “analfabetismo científico”.

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Ao trazer essa discussão para nossos dias, creio que você esteja se perguntando: “Prezado autor, mas essa mesma ciência que cria vacinas, aviões, respiradores, computadores, entre tantas outras coisas usadas no dia a dia, não é mesma ciência que cria armas nucleares, degrada o meio ambiente e gera desigualdades entre ricos e pobres? Será que a ciência e a tecnologia sempre contribuem para o desenvolvimento humano?”.

Concordo com suas provocações. Não é minha pretensão colocar a ciência num pedestal. Cientistas são humanos. A ciência progride com erros e acertos, e uma das características do conhecimento é não ser dogmático. Porém, ainda tentando encontrar respostas, ressalto que, sem uma sociedade com o mínimo de acesso à ciência, continuaríamos ignorando o aquecimento global, a poluição do ar, dos mares e rios, o desmatamento, e estaríamos distantes da cura de muitas doenças, como, por exemplo, o câncer. Creio que ainda não esteja satisfeito com minhas respostas.

Mas por que a ciência?

Ciência porque não basta esperar justiça sem um conhecimento que ensine sobre como gerar e distribuir a riqueza. Ciência uma vez que, assim como na democracia, os cientistas encorajam opiniões, visões de mundo divergentes e o debate livre de ideias. Por fim, ciência para “entender as sentenças profundas, para adquirir disciplina e sensatez, justiça, direito e retidão; para ensinar sagacidade aos ingênuos, conhecimento e reflexão aos jovens” (cf. Provérbios 1,2-4).

Desse modo, precisamos do saber científico, pois, segundo o filósofo francês Blaise Pascal, pela nossa inteligência estamos acima das bestas, mas por nossa ignorância continuamos abaixo dos anjos. Logo, não somos nem anjos nem bestas, mas habitamos entre os dois.

Em vista disso, “toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos” (Albert Einstein). Por fim, com a luz da ciência ao caminhar de mãos dadas com a ética e com a política, podemos regular eficientemente os fins e as prioridades da tecnologia para o bem de todos e do planeta. Diante disso e dos tempos sombrios, permaneço do lado dessa ciência. E você, qual lado escolhe?

Edson Kretle dos Santos é professor de Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ama ensinar e ler, e acredita na bondade humana e em um futuro melhor para todos.

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