Pense na morte para temperar o sabor da vida

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Por Padre Cleiton Silva

Deu medinho de ler esse texto, né? Para muitos, pensar na morte é algo assustador, ainda que gostem de ver filmes de terror ou cenas de acidentes fatais. Sim, essas mortes são sempre morte dos outros, dos desatentos e descuidados: no filme de terror, frequentemente morre o gordinho curioso ou aquele que é coadjuvante; nas cenas de acidentes fatais, sempre estão em cena a negligência e a falta de cuidado.

Pensar na morte, na nossa e das pessoas que amamos, parece não ter sentido, dá a impressão de que queremos antecipar o sofrimento. É verdade, há pessoas que alimentam um tipo de pensamento assim, que pode tornar-se doentio, depressivo e limitante. Esse tipo de atitude, realmente, devemos evitar.

Aprender a valorizar a vida

Mas há uma grande vantagem em pensar na morte: ela nos ajuda a viver melhor, a apreciar mais nossa vida e a vida das pessoas ao nosso redor. E esse é somente o primeiro benefício. Você já se deu conta hoje de que realmente está vivo e de que esse seu dia de vida é uma bênção, é único e haverá nele tantas coisas que talvez nunca mais se repetirão?

Refletir sobre a morte evidencia a brevidade da vida. Em tempos de tantas correrias, projetos desgastantes e deadlines toda semana, tratamos pessoas e situações valiosas como se fossem sem importância. Ter a morte diante dos olhos a nos surpreender, diria são Bento em sua Regra, faz com que saibamos distinguir cada coisa: as essenciais, as importantes e as efêmeras.

Veja, nossa vida funciona melhor com os contrastes. A água fica mais saborosa com a sede, a comida, com a fome, nossa cama, com o cansaço. O contraste é necessário para nos dar equilíbrio. Para viver melhor, não é necessário eliminar os contrastes. Aliás, eles todos realçam o sabor da vitória sobre um dia difícil, um mês conturbado ou um ano assustador.

Compreender os momentos da vida

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Quando os antigos faziam da atividade de pensar na morte um estilo de vida, percebiam que a vida é um imenso folhear de novas páginas e novos capítulos. Sim, haverá uma página final, um parágrafo e um ponto final, mas, até que esse momento chegue, há sempre algo a mais para esperar.

Se hoje você está amargurado com um problema que parece sem solução, tenha calma. Haverá um novo capítulo da sua vida e, como em algumas séries, nas quais, na segunda temporada, o vilão se torna mocinho, e vice-versa, há muitas coisas na vida que hoje são amargas, mas amanhã nos farão sentir o doce sabor da existência.

A vida é uma grande alternância de altos e baixos. O livro do Eclesiastes nos recorda disso: “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (cf. Ecl 3,1). Hoje, qual é o momento que você está vivendo? Sempre há uma mudança, sempre há um depois.

Finalmente: saborear o hoje

Pensar na morte nos dá um horizonte: nossa vida tem um limite e é necessário fazer o melhor que podemos com aquilo que somos, temos e convivemos. Sem a consciência sadia do limite da morte, a vida perde sabor. Um guloso pode até se deliciar imaginando uma refeição sem fim, mas bem sabemos que seria uma prolongada tortura comer sem fome ou provar sabores sem a pureza do paladar.

Saber que a hora do almoço passa e que uma hora sairemos do salão de festa nos incentiva a fazer o que melhor nos apetecer: comer, conversar ou simplesmente dançar.

Padre Cleiton Silva é doutor em Teologia Moral, pároco, pós-graduando em Marketing e Mídias Digitais, professor na Faculdade Paulo VI em Mogi das Cruzes e autor dos livros Confessar e Coração inquieto, pela Paulinas Editora. Gosta muito de futebol, cozinhar e estar nas redes sociais para comunicar as riquezas da fé.

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