Os golpes contra a verdade: muitos nomes, uma só ameaça

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A mentira se apresenta todos os dias de vários modos; precisamos conhecê-los para evitá-los

Por Padre Cleiton Silva

O mês de abril se inicia em muitos países com o dia da mentira. Há um lado cômico e divertido no qual tentamos pegar as pessoas com pequenas mentiras, “causos” absurdos ou notícias bombásticas. Parece um jogo para testar se caímos nessas mentiras como um peixe abocanhando uma isca. Na Itália, de fato, esse dia recebe o nome de pesce d’aprile, ou seja, o dia em que podemos ser fisgados como um peixe pela palavra do outro.

O dia da mentira e as mentiras do dia a dia

Para além do lado cômico que esse dia pode despertar em nós, poderíamos nos perguntar qual a nossa relação com a mentira e com a verdade. Imediatamente condenamos a mentira, mas mesmo assim ela está mais presente do que imaginamos. Vamos verificar isso?

Nos últimos meses, quantas vezes colocamos um filtro nas fotos que postamos nas redes sociais? Qual a finalidade do filtro, se não melhorar nosso visual? Mas o nosso visual real corresponde à imagem que postamos? Por que temos necessidade de ser vistos de um modo diferente como nos vemos?

Você já se pegou chateado ou pelo menos intrigado porque uma pessoa respondeu para você o que você não esperava? Você, por exemplo, perguntou se ficaria bem em tal roupa e a pessoa disse que parecia não combinar com você, que a peça seria um pouco inadequada, sei lá…? Claro que você pode dizer que sua chateação não foi com o que a pessoa disse, mas com o modo como ela disse. Mas o que pesou mesmo não foi o modo ou a negativa em relação ao que você esperava?

Finalmente, em um trabalho de equipe, diante da necessidade de avaliar algum desempenho de um par, quando você fez uma crítica o que pesou mais: sua proximidade com a pessoa, o fato de que a pessoa e você não se dão tão bem, ou o próprio desempenho mesmo? Você realmente consegue separar o desempenho de uma pessoa do modo como você a considera no nível mais pessoal?

Os golpes contra a verdade

O Catecismo da Igreja Católica nos oferece páginas riquíssimas (cf. n. 2464-2513), quando o assunto é a luta por viver na verdade, abandonando a mentira. A mentira é como um ataque à verdade, mas ela aparece na forma de inumeráveis golpes. Quais são os principais golpes contra a verdade?

O mais grave que conhecemos é a calúnia, quando você inventa algo negativo contra uma pessoa, querendo prejudicá-la. Nos dias de hoje, a calúnia recebe um nome mais chique: fake news. É palavra estrangeira e significa “notícia falsa”; é também uma grave ofensa à verdade.

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Mas também é ofensa à verdade o juízo temerário, que é você atribuir às pessoas defeitos morais não baseados no que você sabe, mas no que você supõe. Porém, mesmo que você saiba, tenha visto ou testemunhado, simplesmente sair espalhando sem razão adequada é outro golpe contra a verdade e se chama maledicência

Nestes três casos, a verdade é golpeada com uma intenção ruim: prejudicar o outro. Mas esteja atento para que, mesmo quando a intenção é agradar o outro, também não deixa de ser mentira.

Por exemplo, bajulação ou adulação também são golpes contra a verdade, porque, mesmo querendo ser legal com alguém, você está distorcendo a verdade dos fatos ou da situação. Você acrescenta o que não tem!

Quando você exagera as suas conquistas ou capacidades também comete contra a verdade o golpe da jactância ou fanfarronice. “Deixa de ser fanfarrão!”, poderíamos dizer a tantas pessoas que fazem das redes sociais um espetáculo da autobajulação.

Amor à verdade: questão de vida ou de morte

Mas qual seria a armadura contra os vários golpes da mentira? E a resposta é muito simples: o amor à verdade. O amor à verdade deve ser uma constante na vida de cada pessoa. Assim como precisamos do oxigênio para sustentar nossa vida biológica, precisamos também da verdade para dar sentido a nossa vida espiritual. 

A mentira pode até parecer um atalho para resolver problemas, mas é sempre um atalho sem saída, cruel e extremamente perigoso. Talvez você tenha se divertido um pouco no dia primeiro de abril, tratando seus amigos como um peixe fisgado na brincadeira. E assim como o peixe morre pela boca, o homem perde sua vida quando não está banhado na verdade.

Padre Cleiton Silva é doutor em Teologia Moral, pároco, pós-graduando em Marketing e Mídias Digitais, professor na Faculdade Paulo VI, em Mogi das Cruzes, e autor dos livros Confessar e Coração inquieto, pela Paulinas Editora. Gosta muito de futebol, de cozinhar e de participar das redes sociais para comunicar as riquezas da fé.

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