Natal, uvas-passas e tolerância

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Por Padre Cleiton Silva

Não nego a você que eu gosto das uvas-passas no arroz, na maionese e onde mais quiserem colocá-las, mas espero que isso não tenha feito você abandonar este texto, porque foi justamente pela provocação que escolhi esse tema.

Para além dos divertidíssimos memes que encontro nas redes sociais nessa época, a presença ou não das uvas-passas nas festas de final de ano simboliza uma pergunta que precisa nos acompanhar o ano inteiro: quem eu sou e como sou na convivência do dia a dia?

Se você ainda está preocupado se colocamos ou não as uvas-passas na comida, minha sugestão é simples: não coloque na preparação, mas deixe disponível como “tempero”! Não desagradará quem não gosta delas e não deixará na falta os que delas gostam.

Sobre a tolerância, ainda precisamos continuar a conversa.

Ceia de Natal, reflexo intenso das nossas convivências

Na maioria das ceias de Natal, reencontramos não apenas nossos parentes queridos, mas também aqueles outros… E isso pode ser um desafio, mas pode também nos ajudar a descobrir nossas forças e fraquezas, nossa capacidade de conviver com vários tipos de personalidade que se sentem mais livres para nos incomodar.

Na festa de Natal, dependendo do clima familiar, estamos mais expostos a conversas das quais não queremos participar: a tia insiste em perguntar por que ainda não nos casamos, o tio deseja saber nosso salário, ou o primo fica contando vantagens das suas conquistas ou lamentando todas as suas derrotas.

O interessante é que esse momento, que pode ser intenso e até preparado com um pouco de mágoa guardada – sim, há muitos que, além de preparar a farofa para a ceia, preparam também a resposta à conversa de um ou dois anos antes! –, pode nos servir muito para um questionamento mais sério: como seria nossa relação no trabalho se todo mundo realmente se sentisse em casa? Como nossos colegas de trabalho reagiriam se fôssemos primos e todos protegidos pela mesma avó? Como seria nossa convivência com aquele colega de trabalho mais velho se fosse nosso tio ou tia?

Assim, a ceia de Natal pode ser uma ocasião muito interessante para nos conhecermos mais, saber como as pessoas nos veem e como tratamos aqueles que são diferentes de nós.

Eu gosto das uvas-passas ou eu sou as uvas-passas?

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Esse é o ponto mais dolorido da nossa conversa. Na vida, sou a uva-passa desejada, tolerada ou rejeitada?

Geralmente, nosso ponto de vista é sempre ser vítima ou herói. Custa-nos muito descer do nosso pódio de superpessoas e aceitar que talvez sejamos nós a chatear a festa das pessoas. E não fazemos isso apenas no Natal, mas no trabalho, na faculdade, no dia a dia.

Pode ser que eu seja o tio indiscreto, a tia curiosa ou o primo fanfarrão. Pode ser que, ao longo do ano, eu seja a uva-passa indesejada e tolerada. Dói, não é mesmo?

Por isso, a ceia de Natal, além de todo seu valor religioso e espiritual, é uma grande lição sobre tolerância e convivência social. A família reunida me mostra que a tolerância não pode ser um acidente de percurso, um plano B, mas é uma atitude fundamental para uma coexistência razoavelmente saudável. De uva-passa todos temos um pouco ou #somostodosuvaspassas.

A grande atitude vai ser realizar o esforço de deixar o outro ser ele mesmo, e não o obrigar a ser quem eu imagino que ele deveria ser. Aliás, nessa época de final de ano, me dou conta de que não me tornei tudo o que gostaria de ser nem atingi todos os meus objetivos. Se nem eu sou tudo o que gostaria que eu mesmo fosse, como posso exigir que o outro seja o que eu quero? O outro, com todo o esforço que faz, nem dá conta de ser tudo o que ele sonha ser.

Assim, na próxima ceia de Natal, antes de irritar-se com seus parentes, lembre-se de que o ano todo você talvez seja uva-passa na vida dos outros e provavelmente deva à tolerância alheia muito mais do que imagina.

Abração e feliz Natal!

Padre Cleiton Silva é doutor em Teologia Moral, pároco, pós-graduando em Marketing e Mídias Digitais, professor na Faculdade Paulo VI em Mogi das Cruzes e autor dos livros: Confessar e Coração inquieto, publicados pela Paulinas Editora. Gosta muito de futebol, cozinhar e estar nas redes sociais para comunicar as riquezas da fé.

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