100 anos do Prof. Lauro de Oliveira Lima

Professor Lauro de Oliveira Lima
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Por Prof. Dr. Casemiro de Medeiros Campos

No ano de 2021, tivemos a oportunidade de festejar os 100 anos (se vivo estivessem) de Paulo Freire e Lauro de Oliveira Lima. Dois grandes educadores e destacados intelectuais que viveram situações muito semelhantes, pois, devotados à educação, foram perseguidos pelas suas posições, pelas ideias que defendiam e pelo trabalho em favor da democracia e da construção de uma nova escola no Brasil. 

Professor Lauro de Oliveira Lima
Professo Lauro de Oliveira Lima
Foto: Arquivo da família

Lauro de Oliveira Lima

O Prof. Lauro de Oliveira Lima foi alfabetizado aos 8 anos de idade, quando matriculado na escola do Mestre Zé Afonso, na sua cidade natal, Limoeiro do Norte (CE). Em 1936, na adolescência, Lauro vai para Jundiaí (SP) a fim de cursar o ginásio e fazer a experiência de vida religiosa. Em 1939, desiste da vida religiosa e volta ao Ceará. Inicia a sua carreira no magistério, ensinando no Instituto Padre Anchieta, que, posteriormente, viria a ser o Colégio Diocesano. Nesse mesmo ano transfere a sua residência para Fortaleza, onde passa a lecionar no antigo Ginásio Fortaleza. Formou-se em Filosofia, na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará, e depois se torna Bacharel em Direito. Em 1951, começa um trabalho revolucionário na educação brasileira por meio da formação de professores. Foi durante dez anos Inspetor Seccional do Ministério da Educação e Cultura e exerceu a Cátedra de Psicologia no Instituto de Educação do Ceará.

O livro “A escola secundária moderna”

Em 1962, ele publica “A escola secundária moderna” (Fundo de Cultura, Rio de Janeiro, 1962), com prefácio do Prof. Anísio Teixeira. Este livro é uma obra de referência ainda hoje para os estudos sobre a renovação da escola no Brasil. Lauro de Oliveira Lima, ao longo dos seus estudos, construiu uma obra que tem como base a aprendizagem. Criticava a prática docente centrada nos meios, afirmando que, sob o fenômeno educativo, a “didática da pílula com açúcar” não poderia ser o centro da mediação pedagógica, ou seja, era contra a ideia de um didática “magisterial”, que torna os alunos passivos. Afirmava que a linguagem da didática não deve dispensar o esforço reflexivo do aluno no âmbito da aprendizagem. Desse modo, entendia que a aprendizagem é autoatividade e que a didática era a arte de dirigir a aprendizagem. 

Assim, podemos interpretar que, para o professor, a ação docente partia do planejamento, porém tinha como fim descobrir as técnicas que melhor evidenciassem a atividade do aluno. Desse modo, a educação é o esforço orientado para levar o aluno à plenitude da sua autonomia. O professor tinha como tarefa tirar o aluno da sua imaturidade, levando-o a se superar para a construção de sua autonomia.

Professor Lauro de Oliveira Lima
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No seu trabalho “A escola secundária moderna”, considera a didática como “a arte de levar o indivíduo ao máximo do esforço voluntário para alcançar, progressivamente, a autonomia do ser humano totalmente maduro e integrado ao seu meio”. O fundamento das suas concepções foi desenvolvido a partir do pensamento de Lourenço Filho e Anísio Teixeira. Porém, o próprio Prof. Lauro de Oliveira Lima nos alerta de que as suas ideias sobre a aprendizagem foram fundamentadas quando tomou conhecimento do livro Didactique Psychologique, de Hans Aebli, em que o autor diz que foi a primeira tentativa de aplicar a didática aos fundamentos piagetianos. 

Sistema Educacional Médio no Brasil

O Prof. Lauro também destaca as contribuições de Claparède para uma interpretação científica da pedagogia. Após o que ele mesmo denomina da “descoberta do pensamento de Jean Piaget”, aprofunda estudos nos relatórios do Centro Internacional de Epistemologia Genética e passa a traduzir o pensamento de Piaget, associando a didática às descobertas da Psicogenética. Daí a sua atividade de fazer o que solicitou Piaget aos educadores de todo o mundo: dedicar-se à interpretação e divulgação do Método Psicogenético.

No ano de 1963, iniciou o exercício do cargo de Diretor na Diretoria de Ensino Secundário do MEC, implantando o Sistema Educacional Médio no Brasil, oportunidade em que elaborou o Plano de Educação Média da Universidade de Brasília. Em 1964, com o golpe militar, é acusado de subversivo, sendo aposentado compulsoriamente. Banido da vida social e política do país, sofre sérias dificuldades com a família. Porém, segue com convicção os seus estudos e estreita o domínio do pensamento de Jean Piaget. Em 1972, com autorização de Piaget, passa a usar o seu nome no Centro Experimental e Educacional Jean Piaget e funda a Escola A Chave de Tamanho. Nos anos de 1980 aprofunda pesquisas sobre o pensamento de Jean Piaget e, em 1991, junto com Paulo Freire, recebe do Ministério da Educação a Ordem do Mérito Educativo.

O Prof. Lauro de Oliveira Lima morreu no dia 29 de janeiro de 2013, aos 91 anos, deixando um legado de experiência da maior importância para o pensamento pedagógico, com a publicação de mais de 20 livros em que demonstra sua profunda preocupação pelos rumos, que até hoje permanecem incertos, da educação no Brasil.

Casemiro de Medeiros Campos é doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), professor e pesquisador na área de formação de professores, avaliação, currículo e gestão escolar. É gestor e consultor em educação, com atuação na área privada e pública. Atuou como professor visitante da Universidade do Porto (Portugal) e como professor colaborador na Universidade de Aveiro (Portugal). É conferencista nacional e internacional. Possui diversos livros publicados, entre eles: Gestão escolar e docência, pela Editora Paulinas. Contato: casemiroonline.com.br; editoracaminhar.com.br

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