A noção de tempo e a vida contemporânea

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O tempo passa devagar ou nós é que estamos acelerados?

Por Camila Cury

Estamos em agosto, um mês popularmente referenciado de forma pejorativa – mês que demora “uma eternidade” para acabar. Sabemos que a noção de tempo é subjetiva: duas pessoas, no mesmo local e mesmo momento, têm sensações diferentes de passagem do tempo. No entanto, a nossa noção coletiva e social de tempo se transformou muito com o passar dos séculos e, hoje, o tempo é experimentado por nós de forma muito veloz. Então, será que agosto passa mesmo devagar demais ou nós é que estamos muito acelerados durante o ano todo?

A relação do homem com o tempo

O tempo já existia antes do ser humano, o que nós fizemos foi começar a medi-lo para facilitar nossa vida em sociedade. As primeiras civilizações não sabiam, ainda, medir o tempo, no entanto, percebiam a troca das estações do ano, o nascer do sol, só que em uma posição de passividade.

Foi com a revolução neolítica e, mais adiante, com a democracia grega, que o tempo passou a ser medido. O filme Quanto tempo o tempo tem explica que, mesmo assim, ainda as pessoas “não viviam no mesmo tempo”, por exemplo, um camponês vivia no ritmo sazonal do seu trabalho, enquanto os trabalhadores das cidades seguiam outro ritmo de horário.

Foi só no século XVIII, com o surgimento da sociedade industrial, que se instaurou o tempo do relógio mecânico, para que os trabalhadores pudessem cumprir um mesmo horário de trabalho. E foi justamente nesse contexto que o tempo livre foi criado.

Tempo livre

Durante a primeira metade do século XX, o filósofo alemão Theodor Adorno escreveu sobre a invenção moderna do tempo livre (o tempo em que não estamos trabalhando). Segundo ele, nós temos a ilusão de que escolhemos o que fazer durante nosso momento de descanso e estamos convictos de que agimos por conta própria, mas a nossa sociedade, regida pelo lucro e pelo consumismo, está constantemente nos bombardeando de informações a todo momento, que nos influenciam sobre o que fazer, o que comer ou para onde viajar. Nós acabamos perdendo muito da nossa identidade e passamos a seguir padrões, não só sobre quais hobbies praticar, mas também sobre como podemos produzir enquanto estamos “descansando”.

homem x tempo
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Hoje, no século XXI, podemos falar que o tempo livre já virou praticamente uma extensão do nosso trabalho, as barreiras entre nossa vida pessoal e profissional foram diluídas, por exemplo, se estamos de férias, nossa cabeça não consegue descansar do trabalho, isso porque é necessário estar sempre atento e produzir conteúdo a qualquer momento, pois o nosso tempo não espera.

Valorizar o presente

Hoje em dia, nós não trabalhamos mais somente para produzir coisas materiais (geladeiras, máquinas, como na era industrial), produzimos, principalmente, serviços, valores, informações, e as coisas acontecem em uma velocidade tão espantosa e a informação chega por tantos lados, que nos deparamos com a angústia da escolha: o que eu priorizo? Onde vou gastar o meu tempo? Temos a noção de que o tempo é curto e de que qualquer coisa que fizermos é perda de tempo!

As transformações tecnológicas do século XXI acontecem em espaços de tempo muito curtos, mas a nossa mente e o nosso ritmo biológico natural não conseguem assimilar isso com tanta rapidez, e, quando existe esse desencontro, é que surgem os transtornos de ansiedade, por exemplo. Além da rapidez, ainda há a quantidade de informação que nossa mente precisa assimilar nos dias de hoje, esse excesso não é saudável!

Cada vez mais, vemos pessoas sentadas lado a lado, mas elas estão sozinhas em seus dispositivos eletrônicos. A Internet nos aproximou, mas nossa mente está em tantos lugares ao mesmo tempo, que não vivenciamos o presente; estamos totalmente ansiosos. Obviamente que a tecnologia é uma ferramenta que estará cada vez mais presente na nossa vida, o movimento que proponho aqui é no sentido de viver o presente da forma mais genuína que pudermos, de contemplar as pequenas coisas da vida e de encontrar o que, de fato, nos traz felicidade.

Muitas vezes, acreditamos que estamos sem tempo para nossos relacionamentos e para cuidar de nós mesmos, mas temos tempo para outras coisas menos essenciais, e isso é GEEI (gasto de energia emocional inútil), pois você está desperdiçando uma energia que poderia estar sendo bem aproveitada. Vamos buscar um Eu mais saudável, que se conhece bem e que sabe gerenciar as próprias emoções, somente assim seremos autores da nossa história e do nosso tempo!

Camila Cury é presidente e fundadora da Escola da Inteligência. Autora do livro A beleza está nos olhos de quem vê(Editora Sextante, 2010), vive a maternidade com seus filhos Alice e Augusto, e, em seu Instagram, inspira famílias que buscam conteúdo sobre educação dos filhos.

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