Por que as crianças estão cada vez mais ansiosas?

Por Camila Cury

O excesso de atividades e de contato com dispositivos eletrônicos pode ser prejudicial à infância de seus filhos

Futebol, balé, aulas extracurriculares, idiomas, natação e música. Apesar de vivermos outro período agora, no qual as crianças não podem frequentar nem as escolas, antes da pandemia, muitas tinham uma agenda mais cheia que a de adultos. Além disso, elas passam horas em frente ao tablet e à TV. Todas essas atividades estimulam, cada vez mais precocemente, seu intelecto.

A princípio, oferecer esses estímulos aos nossos pequenos parece benéfico. No entanto, neste artigo, eu explico por que devemos ter cuidado com esse comportamento que julgamos tão inofensivo.

Crianças sobrecarregadas de tarefas e a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA)

Em meu livro A beleza está nos olhos de quem vê, conto a história de Julia, que adorava admirar, calmamente, a bela paisagem que avistava de sua janela.

Mas, à medida que seus pais, preocupados com um futuro promissor, foram sobrecarregando-a de atividades, aquela paisagem passou a ser entediante. Julia se tornou uma menina agitada e ansiosa e desenvolveu a chamada SPA.

Dr. Augusto Cury, meu pai, psiquiatra e autor da Teoria da Inteligência Multifocal, afirma que os sintomas da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) na infância se parecem muito com os da hiperatividade: agitação, repetição dos mesmos erros, deficit de concentração, dificuldade de elaborar experiências etc.

Os pais de Julia, assim como muitos pais nos dias de hoje, tiveram uma excelente intenção, só não sabiam que as crianças precisam ter infância, necessitam inventar, correr riscos, frustrar-se, ter tempo para brincar e se sujar.

O reinado dos dispositivos eletrônicos e a SPA

Jelleke Vanooteghem -Unsplash

Além do excesso de atividades, outra forte causa da SPA é a exposição às telas. A televisão, os dispositivos eletrônicos e as redes sociais iludem o tédio, a solidão, e estão contribuindo para que crianças fiquem cada vez mais estressadas e ansiosas.

Segundo Freud, a partir de uma certa idade, a criança vai sendo inserida no Princípio da Realidade, ou seja, ela começa a perceber que nem todos os seus desejos podem ser satisfeitos, que ela não é onipotente e, por meio de tais frustrações, sua personalidade vai formando-se pouco a pouco. No entanto, o excesso de telas atrapalha esse processo. Isso faz com que ela viva em um mundo de ilusões.

Filhos mais felizes e menos ansiosos

Uma criança que não se frustra, que não consegue diferenciar realidade de ficção, será um adulto sem limites, mimado, ansioso e que terá dificuldade em exercitar a sua mente. Por mais que vídeos educativos sejam interessantes, lembre-se do tempo perdido com relação às verdadeiras experiências. Tenha cuidado também com o excesso de tempo que os pequenos passam aprendendo, mesmo que de forma prazerosa. Estimular o aprendizado é essencial, mas, como tudo na vida, há limites e não podemos sobrecarregá-los a ponto de arruinar uma fase tão maravilhosa como é a infância.

Camila Cury é presidente e fundadora da Escola da Inteligência. Autora do livro “A beleza está nos olhos de quem vê” (Ed. Sextante, 2010), vive a maternidade com seus filhos Alice e Augusto e, em seu Instagram, inspira famílias que buscam conteúdo sobre educação dos filhos.

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