O que a pandemia ensinou às famílias?

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Um ano depois, o que pais e filhos aprenderam com a pandemia

Por Camila Cury

A Covid-19 atingiu o mundo todo e foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em março, como pandemia. Após um ano, qual legado ela deixou para o nosso comportamento em família? Trago uma reflexão sobre o impacto desse período nas relações e emoções familiares.

Isolamento social e a conexão emocional

As relações sociais são necessárias durante toda a nossa vida, e a família é a instituição na qual ocorrem nossas primeiras interações e pela qual temos acesso ao convívio em sociedade. Não há como negar, portanto, que todos nós nos relacionamos, de uma forma ou de outra, com nossos familiares. Mas existe uma grande diferença entre se relacionar e se conectar. Podemos passar a vida toda apenas convivendo com nossa família, mas sem tentar compreender os sentimentos, pensamentos e comportamentos de seus membros. Ou seja, sem estabelecer uma conexão emocional com eles.

O isolamento social nos aproximou fisicamente: crianças com aulas online e pais trabalhando home office passaram a conviver no mesmo ambiente. Mas todos transformaram essa experiência em uma oportunidade? Não! Isso porque laços são construídos pela qualidade de tempo e não pela quantidade. O segredo para uma relação familiar saudável é a conexão emocional, e é somente no diálogo, na escuta atenta e na criação de um ambiente acolhedor que a conexão ocorre.

A pandemia nos trouxe a oportunidade de penetrar em camadas mais profundas dos nossos filhos e compreender o que está por trás de seus comportamentos, seus conflitos, seus medos; mas para alcançá-los é preciso estar disposto a isso. O que quero dizer é que esse período pode ter se convertido em uma grande oportunidade para os pais que conseguiram participar mais da educação de seus filhos, tanto da educação escolar – ajudando a fazer as tarefas de casa e acompanhando as aulas – quanto da emocional.

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Educando as emoções das crianças

As crianças foram orientadas a não brincar com os amigos, a não visitar os avós, nem fazer as inúmeras atividades que estavam acostumadas. Com isso, muitas delas se tornaram mais ansiosas, estressadas e, até mesmo, depressivas. No entanto, famílias que tiveram uma escuta atenta e souberam identificar as emoções de seus filhos conseguiram atenuar os impactos desses transtornos psíquicos. Como fizeram isso? Ajudando-os a ressignificar esse momento – trazendo ensinamentos sobre aprendizado e gratidão, que foram, automaticamente, sendo sobrepostos aos pensamentos tristes em suas mentes.

Todos precisam desacelerar

Quando a família ensina a importância de valorizar os momentos dia após dia – o abraço, a escola, os amigos –, e explica que a vida não pode ser levada no automático, as crianças aprendem que devem ser gratas por tudo que têm. A desaceleração das atividades cotidianas pode ter sido interpretada como algo ruim por muitas pessoas, mas ela deve ser enxergada como benéfica. Em que sentido? Muitas crianças viviam em um ritmo frenético, e esse excesso de atividades pode desencadear a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA); além disso, elas precisam aprender a criar no ócio, a lidar com o tédio. Todos precisamos de um tempo de descanso da mente; mantê-la ocupada constantemente não é saudável. Veja bem: mesmo que as atividades sejam prazerosas para a criança, isso não significa que ela não precise de um tempo sem nada para fazer.        

A pandemia acabou forçando as crianças a ficar em casa sem a companhia dos amigos e sem suas atividades. Tudo aquilo que era preestabelecido para elas como divertido foi cortado de suas vidas; dessa forma, foi preciso que criassem, inventassem novas formas de se divertir. Isso estimula a criatividade, a imaginação e a cognição dos pequenos, e muitas famílias souberam explorar isso dentro de casa.

Por fim, os pais que conseguiram manter as mentes dos filhos mais saudáveis foram aqueles que não se esqueceram do cuidado com a própria mente. Aqueles que buscaram se conhecer melhor e cuidar de suas emoções transmitiram isso aos seus filhos. Por isso, a educação das emoções em família começa, antes de tudo, em nós mesmos.

Camila Cury é presidente e fundadora da Escola da Inteligência. Autora do livro A beleza está nos olhos de quem vê (Editora Sextante, 2010), vive a maternidade com seus filhos Alice e Augusto, e, em seu Instagram, inspira famílias que buscam conteúdo sobre educação dos filhos.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Camila Cury, expressa na escrita vida, um jeito didático de dizer a verdade de uma forma completa. Uma psicóloga do século 21, está inserida no nosso meio para colaborar com a ciência e sua plenitude. Me sinto inspirado e motivado ao ler esta coluna da Camila Cury. É uma estrela, vinda de um astro soberano da psiquiatria comportamental “Augusto Cury”. Parabéns a Família Cury, por nos transmitir tanta luz num mundo de muitas trevas.

    cordialmente,

    um abraço a Camila Cury.

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