Mães: ao trabalho!

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Exercer a função materna e profissional, de maneira simultânea, gera diversas inquietações na mulher

Por Camila Cury

O acesso ao mercado de trabalho pelas mulheres foi uma grande conquista, mas não nos poupou de novos e grandes desafios. Ser mulher, ser mãe, ser esposa, ser profissional, ser empreendedora, ser proativa, ser… ufa! Sobra ainda algum espaço para ser… feliz? Sobra espaço para olhar para o nosso mundo interno, diante de um mundo externo tão barulhento e cheio de pressões?

Nesta primeira quinzena de maio, comemoramos o Dia do Trabalho e o Dia das Mães, e considero que, se ligarmos os assuntos, chegamos a um tema bastante rico e pertinente para refletir perante os dias atuais. Exercer a função materna e profissional, de maneira simultânea, gera diversas inquietações, com as quais podemos lidar melhor a partir de um olhar multifocal.

Temos o que comemorar?

Com certeza temos. Mulheres trabalhando, sendo empreendedoras, empregando outras mulheres, criando cargos, assumindo importantes funções, tendo sua própria renda, podendo contribuir na renda familiar e, principalmente, se sentindo realizadas em suas funções.

Existem também diversas vitórias que foram sendo conquistadas ao longo do tempo, como a licença-maternidade e o auxílio-creche; preocupações essas que vêm crescendo entre as empresas que buscam oferecer uma qualidade de vida melhor aos funcionários.

Ainda há muito a conquistar?

Com certeza, de novo. Ainda existe preconceito em relação à mulher no mercado de trabalho, diferenças salariais e, principalmente, questões ligadas à maternidade. Em um mundo que busca a produtividade, a sensação é de que não cabe uma licença-maternidade adequada, uma licença-paternidade, e também não cabe um filho doente que precisa de cuidados.

Mesmo assim, as mulheres têm buscado seu espaço e contribuído para que o mundo profissional seja menos corporativo e mais humanizado. Mudanças nesse sentido já têm sido vistas, e acho que é nosso papel continuar nesse processo de constante reconstrução.

Acúmulo de funções

É importante refletirmos sobre o acúmulo de funções das mulheres que são mães nos dias de hoje. Acúmulo de funções no trabalho? Também, em muitos casos, mas estou falando da vida. As mães saem para trabalhar, mas a rotina em casa geralmente ainda é intensa e, muitas vezes, as funções são pouco compartilhadas nesse contexto.

É possível que muitas mães se sintam desesperançosas em relação a receber ajuda e partilhar tarefas, mas é preciso tentar. Somos supermulheres? Sim. Precisamos dar conta de tudo? Absolutamente não. É importante nesse percurso olhar para dentro e perceber quais das nossas crenças e comportamentos podem ser transformados para que tenhamos dias com mais leveza e prazer de viver.

Esse momento de autopercepção e busca por mudanças pode proporcionar um espaço para se abrir mais ao diálogo em família, para se permitir falar sobre as próprias emoções, angústias e inquietações, para se permitir ser vulnerável, para pedir ajuda tanto ao cônjuge quanto aos filhos, à medida que eles tenham idade e maturidade para determinadas tarefas, e até mesmo acessar outros familiares. Parece um processo desafiador, mas ele pode trazer recompensas.

E, nesse caminho, às vezes é necessário desconstruir padrões, aprender a delegar, reconhecer e elogiar mesmo as pequenas tentativas de ajuda, de maneira que possam se tornar mais frequentes. Talvez seja o momento de praticar o olhar multifocal, enxergar as pessoas da sua família por outros ângulos, buscando possibilidades e potenciais.

Sobra cansaço e falta tempo

O acúmulo de função traz às mães uma sensação de cansaço, estresse, ansiedade e, além de tudo isso, culpa por não conseguirem se dedicar o tempo que gostariam aos seus filhos. É preciso ter em mente que muito mais importante que o número de horas que podemos passar com nossos filhos é a qualidade dessas horas.

Quando está com seus filhos, você se faz presente? Deixa de lado o trabalho, as preocupações, o celular? Conversa? Pergunta? Compartilha também sobre si?

Quem cuida precisa de cuidado

Vlada Karpovich/Pexels.com

Nessa rotina onde não faltam atividades e obrigações, é muito fácil nos esquecermos do fato de que quem cuida também precisa ser cuidado. Que tipo de cuidado? O cuidado com a saúde, com a aparência, com o corpo e, sobretudo, com a própria mente. 

Cada pessoa tem necessidades diferentes, mas é preciso abrir espaço na rotina para cuidar de si. E isso não significa ser egoísta. Pelo contrário, cuidando de você mesma, você estará mais realizada, mais disposta, mais relaxada, e isso será muito positivo para aqueles que estão a sua volta.

Então, a reflexão sobre essas datas comemorativas nos lembra de que podemos valorizar as oportunidades que a vida nos oferece de enxergarmos as situações por novos ângulos. Quando pensei no título: “Mãe: ao trabalho!”, me referi ao trabalho de olhar para dentro, de buscar mudanças para que possamos nos sentir bem e estabelecer o nosso lugar no mundo, ou seja, junto daqueles que amamos e fazendo o que gostamos de fazer.

Camila Cury é presidente e fundadora da Escola da Inteligência. Autora do livro A beleza está nos olhos de quem vê (Editora Sextante, 2010), vive a maternidade com seus filhos Alice e Augusto, e, em seu Instagram, inspira famílias que buscam conteúdo sobre educação dos filhos.

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