Caráter, fator de sucesso

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Pais e educadores devem promover ambientes favoráveis às aprendizagens e ao desenvolvimento humano, para impulsionar uma educação fundamentada em virtudes

Por Amaro França

Um olhar sobre a educação nos move, talvez provocados por questões sobre as quais não temos respostas, mas que, provavelmente, nos inquietam e nos motivam a apostar na força motriz que a educação é, e também no que ela pode produzir como diferencial na vida das pessoas e de uma nação. Dentre esses questionamentos, vem-nos à tona: por que algumas crianças, jovens e/ou adultos têm êxito, sucesso, e outros nem tanto? E o que nós, enquanto pais e educadores, podemos fazer para que uma determinada criança ou toda uma geração possa ir a caminho do sucesso de aprendizagens e de realizações?

Os psicólogos e neurocientistas já apontam há muito tempo o poder que tem o papel dos pais ou responsáveis, desde a mais tenra idade infantil, na formação dos indivíduos de sucesso. Segundo o jornalista e escritor Paul Tough, em seu livro Uma questão de caráter, “os pais e responsáveis capazes de nutrir um relacionamento próximo e acolhedor com os filhos podem gerar neles uma resiliência que os protege de muitos dos piores defeitos de um ambiente adverso na infância. Isso pode parecer uma mensagem um tanto sentimental, mas na verdade se baseia em fatos rigorosamente científicos. O efeito de um bom ambiente familiar não é apenas emocionalmente psicológico, afirmam os neurocientistas; é também bioquímico”.

Certamente, de forma racional, desejaríamos que as relações humanas, familiares, educacionais pudessem seguir uma lógica precisa, exata. Ledo engano. A condição humana inter-relacional, familiar e/ou educacional, é constituída por interfaces múltiplas, com dinâmicas próprias e até mesmo insondáveis no mistério que as une. Porém, é nessa inerência de relações que devemos nos construir com identidade pessoal e como sujeitos de relações e de aprendizagens, na edificação de uma multiplicidade harmônica (uma unimultiplicidade), familiar e educacional. Ser múltiplo e, ao mesmo tempo, harmônico não é um exercício simples. É um exercício que promove o autoconhecimento aberto a uma inter-relação pessoal – no conhecimento do que o outro significa ou representa e, também, do que pode ser construído coletivamente. Dessa forma, vamos fortalecendo um caminho educacional que promove aprendizagens e vida.

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Na observação do desenvolvimento infantil de crianças que vivem em ambientes não tão harmoniosos, os fisiologistas especializados no estresse também encontram explicação biológica para esse fenômeno. “A parte do cérebro mais afetada pelo estresse precoce é o córtex-frontal, decisivo em todos os tipos de atividades de autorregulação, tanto emocionais quanto cognitivas. Em consequência, as crianças que crescem em ambientes de grande estresse, geralmente, têm maior dificuldade para se concentrar, se aquietar, se recuperar de decepções e de obedecer a instrução… É na primeira infância que o nosso cérebro e nosso corpo se mostram mais sensíveis aos efeitos do estresse e do trauma. Mas é na adolescência que os danos infligidos pelo estresse podem levar a problemas mais graves e duradouros”, afirma Paulo Tough.

É sob a perspectiva de ambientes favoráveis às aprendizagens e ao desenvolvimento humano que, cada vez mais, se tem a importância de promover uma educação com bases sólidas de relações saudáveis, fundamentadas em virtudes que promovam e dignifiquem a pessoa. Há uma abordagem teórica no campo da psicologia educacional, consolidada na década de 1960, mas ainda bastante atual, intitulada “Teoria do Apego”. Dentre tantas contribuições, essa teoria aponta: os bebês humanos que recebem mais atenção e afeto no começo da vida, depois, se revelam crianças mais curiosas, autoconfiantes, calmas e capazes de lidar com os obstáculos, pois, principalmente suas mães, haviam fomentado nelas uma espécie de “nutriente de resiliência” que funcionou como proteção para o estresse. Embora, anos depois, habituais desafios tivessem surgido na vida dessas crianças, elas tinham a capacidade de autoafirmação – recorrendo às reservas do “nutriente de resiliência” –, de autoconfiança, e seguido em frente.

Dessa forma, é mister exercermos fundamentalmente os nossos papéis de pais/responsáveis e educadores, no cultivo de laços humanos de apego, de valores, de virtudes, de relações saudáveis, que irão integrar um conjunto de capacidades de pontos fortes que podem ser praticadas e ensinadas, para a constituição do caráter dos nossos filhos e educandos. Pois, sem dúvida alguma, tanto quanto o intelecto, o caráter é fator preponderante de sucesso.

Amaro França é escritor, palestrante e gestor educacional. Autor do livro Gestão humanizada: liderança e resultados organizacionais, da Ed. Ramalhete. Apaixonado pela educação, gosta de escrever, tendo como propósito impactar positivamente as pessoas com ideias, liderança e trabalho.

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