Tempo de vida, tempo de telas

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O celular já se tornou praticamente uma extensão do próprio corpo; passamos grande parte do tempo na frente dele, conectados em rede


Por Moisés Sbardelotto

Em meio a uma pandemia que parece não ter fim, foi preciso reinventar os estilos de vida e o modo de gerir o próprio tempo. Diante da necessidade de distanciamento, as tecnologias assumiram um papel ainda mais importante na manutenção das relações familiares, de amizade e de trabalho, mas nem sempre de forma saudável.

O celular, por exemplo, já se tornou praticamente uma extensão do próprio corpo. Logo quando acordamos de manhã, a tentação é acessá-lo para ver as notificações; um verdadeiro ritual que também já antecede quase obrigatoriamente a hora de dormir. E, no intervalo entre esses dois momentos, passamos grande parte do tempo na frente dele, conectados em rede.

De acordo com o relatório Digital 2021, produzido pela We Are Social e Hootsuite, o brasileiro passa 10h08min por dia conectado à internet, sendo que a média mundial é de 6h54min. Isso coloca o Brasil na segunda posição entre os países pesquisados, atrás apenas das Filipinas.

O coronavírus exponenciou essa realidade. As empresas fizeram uma nova pesquisa em julho de 2020 para observar os efeitos da pandemia no uso das tecnologias. Em nível mundial, 70% dos entrevistados confirmaram que passaram ainda mais tempo na frente do celular. 

Crianças e telas

E as crianças não fogem desses indicadores. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019 apontou que 89% dos brasileiros entre 9 e 17 anos são usuários de internet no Brasil, e 95% destes disseram que se conectam à rede por meio do celular, o que facilita o uso e as chances de passar mais tempo na frente da tela. Nesse contexto, a rápida disseminação das diversas redes sociais digitais, aplicativos e jogos voltados a crianças e adolescentes requer cada vez mais atenção por parte dos responsáveis.

A Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu manual “Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital” (disponível aqui), indica claramente que é preciso desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas digitais das crianças com menos de 2 anos, principalmente durante as horas das refeições ou antes de dormir. 

Para as crianças entre 2 e 5 anos de idade, é preciso limitar o tempo de exposição às mídias ao máximo de uma hora por dia. Já para as crianças maiores de 6 anos e adolescentes, é importante estabelecer limites de horários e mediar o uso para ajudar na compreensão das imagens, além de equilibrar as horas de jogos digitais com atividades esportivas, brincadeiras e exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza.

Atenção ao máximo

Freepik.com

Mas a culpa de tais problemas não é só de quem está na frente das telas, mas também de quem projeta as tecnologias e programa aquilo que irá aparecer em tais telas. É a chamada “economia da atenção”, por meio da qual as empresas de tecnologia da informação e comunicação buscam atrair o máximo possível da atenção das pessoas e consumir o máximo possível do tempo de seus usuários, para extrair o máximo possível de dados e informações sobre eles, para depois obter lucro com isso por meio da publicidade dirigida.

Os celulares, principalmente, são programados, a partir de várias estratégias, para manter os nossos cérebros ocupados e focados apenas e exclusivamente na tela. O risco, com isso, é de se sofrer de “nomofobia”, o medo irracional de ficar sem o celular ou de ficar impossibilitado de usá-lo por algum motivo, como ficar sem sinal ou sem bateria. É uma verdadeira dependência tecnológica, o vício em tecnologias. O resultado disso são problemas de saúde física e psicológica, como ansiedade, depressão, pânico, obsessão compulsiva, fobia social.

Diante disso, é cada vez mais importante tomar consciência e reavaliar quanto tempo dedicamos ao uso de tecnologias e o que fazemos no tempo que passamos conectados. Porque, afinal, tempo é vida. E a vida não cabe em uma tela.

Moisés Sbardelotto é jornalista, tradutor, palestrante e doutor em Ciências da Comunicação. É membro do Grupo de Reflexão sobre Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Grecom-CNBB). Seu livro mais recente é “Comunicar a fé: por quê? Para quê? Com quem?” (Vozes, 2020).

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