A vida dos povos indígenas em meio a uma pandemia

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Historicamente, os grandes surtos são prejudiciais aos indígenas, a começar pela omissão de atendimentos médicos

Por Jaqueline Dubas

O povo indígena é um dos grupos mais prejudicados pela disseminação de doenças. Com a transmissão, de pessoa a pessoa, de um novo coronavírus, o SARS-CoV-2, identificado em Wuhan, na China, a Covid-19 alastrou-se e chegou ao Brasil.

Essa nova pandemia atingiu os mais vulneráveis, sendo a comunidade indígena um dos grupos mais atingidos. Um dos motivos é a fragilidade do sistema de saúde destinado aos índios, vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). A Sesai reconhece que os povos indígenas são mais suscetíveis a viroses, especialmente a infecções respiratórias, como a Covid-19, sendo uma das maiores causas de mortalidade infantil.

Apesar de boa parte dos povos indígenas viver isolada, a doença chegou até eles. De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), 37.540 indígenas foram confirmados com coronavírus, 859 mortes foram registradas e 158 povos foram infectados. Esses são os dados de um panorama geral da Covid-19 no Brasil, onde existem 305 povos indígenas.

Medidas de proteção aos povos indígenas

A doença se prolifera rapidamente entre os povos indígenas: além da dificuldade do acesso ao sistema de saúde, seja pela distância, seja por falta de equipamentos, seus modos de vida, como o compartilhamento de utensílios nas casas coletivas, também contribuem para isso. Para uma maior proteção dos povos isolados, madeireiros ilegais, garimpeiros e grileiros não deveriam invadir territórios próximos às aldeias.

A APIB solicitou ao Ministério Público medidas maiores de proteção aos indígenas. Entre aquelas recomendadas ao Executivo, estão a inclusão dos indígenas em grupo prioritário de vacinação contra gripe, o fornecimento de alimentos e produtos de higiene e a descentralização de recursos e licitações para aquisição de material utilizado no combate e prevenção, bem como a distribuição de insumos laboratoriais, como testes PCR – exame que detecta o novo coronavírus – e sorologia.

O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier, relatou ações de enfrentamento ao coronavírus entre a população indígena, em uma audiência virtual promovida pela Interamericana de Direitos Humanos com o tema: “Pandemia e Povos Indígenas”. De acordo com Xavier, foram gastos 27 milhões de reais com medidas de combate à doença e ajuda aos povos indígenas, entre elas a implantação de mais de 300 barreiras sanitárias e a distribuição de 425 mil cestas de alimentos para mais de 207 mil famílias indígenas em todo o país. Segundo o presidente, mais de 500 ações foram realizadas: “Somente no contexto da pandemia, foram 184 ações de fiscalização, em 128 terras indígenas, além de cerca de 7,5 milhões de reais investidos em ações de fiscalização e proteção territorial em áreas onde vivem indígenas isolados e de recente contato”, ressaltou.

Histórias vivas

Highnesser – Pixabay

São muitos os povos indígenas no Brasil, sendo que cada região possui seus costumes e línguas maternas diferentes. Logo, o maior desafio é passar informações corretas para prevenir e combater o coronavírus. De acordo com o Instituto Socioambiental, cartilhas são redigidas em diferentes línguas indígenas para auxiliar cada povo.

Os povos são culturas vivas, com histórias de vivências e lutas, logo, o coronavírus pode ser uma “praga” fatal para destruir grandes comunidades. O “ixtiwa”, nome dado ao coronavírus pela língua da tribo Fulni-ô, pode matar grandes líderes indígenas, deixando aldeias mais fragilizadas. Em diversas aldeias, com o coronavírus, chegaram também a fome, a falta de medicamentos, mortes inesperadas e muito sofrimento.

A pandemia pegou o mundo inteiro de surpresa, mais ainda quem precisa de uma atenção especial para com seu povo. A cada indígena morto pelo coronavírus, também morre uma parte de suas histórias, conhecimentos e saberes. E um dos seus maiores ensinamentos pode ser referente à medicina tradicional.

Medicina tradicional

Drew Jemmett – Unsplash

Apesar da medicina ter evoluído, a medicina tradicional é muito estimulada, principalmente nesse grupo que tem dificuldade de acesso ao sistema de saúde. As comunidades incorporaram elementos de suas próprias culturas, como chás e benzimentos oferecidos por pajés. Esses elementos são frutos de suas memórias vivas, porque essas comunidades indígenas já vivenciaram outras pandemias enfrentadas pelo mundo.

O Instituto Socioambiental ajudou os povos a preparar-se para o pior e buscar soluções para enfrentar a doença, a começar pelas orientações de uso de máscara e álcool em gel. Mas, com sua sabedoria, os líderes já tinham suas cartas nas mangas. Seus conhecimentos medicinais, com benzimentos e chás, estão sendo seus maiores aliados no alívio da Covid-19 em suas tribos.

A medicina tradicional indígena é muito eficaz. Os mais usados são os chamados “remédios do mato”, com plantas responsáveis pelo alívio da dor, além do uso de gordura animal, de enzimas, para banhos e rituais, conhecidos como pajelança, que são práticas para a cura. Os povos indígenas sabem usar o que a floresta concede a eles.

O Ministério da Saúde, através da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, reconhece a eficácia da medicina tradicional indígena e estabelece vínculo com o sistema oficial de saúde para levar conhecimento às pessoas e ampliar os estudos medicinais.

Jaqueline Dubas é jornalista, ama sua família e é mamãe do Gabriel Francisco. Trabalha na área de jornalismo político. Gosta de escrever e ama futebol.

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