A Encíclica Fratelli Tutti

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Papa Francisco nos oferece uma nova encíclica tendo como base o amor ao próximo

Por João Décio Passos

O Papa Francisco nos ofereceu uma nova encíclica social, a segunda de sua autoria, em continuidade direta com a primeira, a Laudato Si’. Nessa encíclica, Francisco constatava a crise ecológica planetária e convidava todos a uma mudança de rumo: uma conversão ecológica que implicaria rever padrões de consumo e superar o regime tecnocrático centrado na exploração da natureza. Indicava também a necessidade de uma gestão planetária que pudesse gerir essa grande mudança. A nova encíclica, estruturada em oito capítulos, adota mais uma vez o método ver-julgar-agir e ensina de modo direto e claro sobre a urgência de construir a fraternidade universal/planetária por meio da amizade social entre as nações.

A crítica da situação atual

A Encíclica Fratelli Tutti (todos irmãos) apresenta precisamente os princípios, os critérios e as diretrizes dessa gestão planetária, tendo como base o amor ao próximo, centro da vida cristã, assim como as conquistas modernas dos direitos comuns, da liberdade e da igualdade. Um mundo globalizado nas dimensões econômica, tecnológica e comunicacional precisa construir caminhos e organizações políticas concretas de convivência universal.

As contradições desse mundo são mais uma vez expostas pelo Papa: o capital neoliberal que se globaliza sem parâmetros éticos, a globalidade econômica que rejeita a globalização política, os regimes fechados que negam as relações multilaterais, os retrocessos das conquistas históricas de direitos humanos e de valores de igualdade e liberdade, o sistema de comunicação que constrói bolhas autorreferenciadas que dispensam a verdade, o individualismo que dispensa e renega o outro, de modo particular os mais vulneráveis.    

A urgência das construções

O mundo globalizado tem revelado as suas contradições e os limites para a convivência humana. A pandemia do coronavírus trouxe à luz essas contradições e mostrou a urgência de uma mudança de rumo. O individualismo que tem suas raízes na concupiscência humana se estrutura em posturas fechadas que constroem muros que isolam e separam pessoas e nações.

O resultado é a negação da igualdade do ponto de vista prático (cultura do descarte e da indiferença), mas também falsas formulações de economicismos, de nacionalismos, de xenofobia etc. Um mundo cada vez mais fragmentado e conformado com o descarte dos outros se configura, construindo regimes fechados e gerando as mais diversas formas de violência. Sem uma comunidade planetária organizada em torno do valor da fraternidade, a convivência humana caminha para o caos. Esse caminho de amor político deve partir dos últimos para que a justiça prevaleça.

O ser humano como valor inegociável

Fr Golay – Pixabay

Todos somos irmãos! Esse valor religioso, cristão e civil deve ser traduzido social e politicamente (amor social e amor político). O caminho proposto segue um percurso: reconhecimento do outro como valor em si mesmo => acolhida empática das diferenças do outro => postura de diálogo que implica acolher, escutar e buscar ponto de contato => busca de consensos para a convivência.

O diálogo não significa nivelamento em torno de uma única ideia e nem ocultamento de conflito, mas constitui um caminho processual que implica respeitar as diferenças, abrir mão de causas pessoais e lançar-se numa perspectiva de esperança. Por esse caminho devem trilhar as relações em todas as esferas da convivência humana, do interpessoal ao internacional. Na busca dessa fraternidade devem empenhar-se todos, mas, de modo especial, as nações com suas organizações multilaterais. As religiões têm um papel fundamental nessa construção, em nome da igualdade dos filhos de Deus.   

A recepção da encíclica

As encíclicas papais são ensinamentos oficiais da Igreja católica. Têm valor doutrinal para os católicos. Uma vez publicadas, entram na fase de recepção por parte de todo o povo de Deus, ou seja, de acolhida, de conhecimento (estudo) e de aplicação (na vida concreta). Isso significa dizer que um ensinamento não produz efeitos automáticos uma vez publicado, mas exige um processo de acolhida.

Cada comunidade deverá encontrar as formas mais adequadas de recepcionar esse ensinamento, em nome da fé e da razão que afirmam a dignidade e a igualdade inalienável de todos os filhos de Deus. O passo imediato é conhecer o documento. A sociedade atual está contaminada por “valores” e mecanismos contrários aos ensinamentos da Fratelli Tutti. Não faltam até mesmo dentro da Igreja aqueles que rejeitam ou deformam os ensinamentos do Papa. Com Francisco, cada católico é chamado a afirmar que o mundo deve buscar regimes políticos que restaurem a fraternidade universal e superem todas as formas de fechamento, ódio e violência.  

João Décio Passos é livre-docente em Teologia pela PUC-SP e editor da Paulinas. Autor de vários livros, sendo o último sobre a temática do tradicionalismo católico: A força do passado na fraqueza do presente: o tradicionalismo e suas expressões, publicado pela Paulinas Editora.

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