Crônicas interativas

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Por Carmen Maria Pulga

Crônica, na literatura, é um trabalho de arte em que se toma um fato miúdo e se mostra nele uma grandeza sublinear, uma beleza ou uma singularidade surpreendente.

Nesse precioso ambiente digital, convidamos você a ser o garimpeiro que vai nos trazer o material bruto, e nós, como joalheiros – amadores ainda –, vamos incrustar essa joia numa moldura literária e abrilhantá-la com a verdade, a poesia e um sopro de espiritualidade.

Juntos, apresentaremos aos outros leitores uma nova obra de arte: crônicas interativas sobre fatos do cotidiano. No final desta crônica, deixe suas sugestões e comentários. Ah, sim, um alerta condicionante: o material bruto deverá ter em seu DNA o valor de pérola. 

Segue o primeiro ensaio:

Pequena grande guerreira

Rita fechou a porta com segurança e saiu para o trabalho. Excelente cozinheira, não é o cardápio do dia nem o trabalho duro que tornam seu caminhar ansioso e seu olhar inquieto. São quatro e trinta da manhã. Vasculha a rua de cima a baixo e caminha determinada traçando em sua mente o trajeto: ônibus, metrô, ônibus. Rotina diária para chegar à casa de Dona Marta antes das seis.

Hobi Industri – Unsplash

Rita veio com o marido do Piauí para São Paulo, e hoje ela amarga um divórcio, rendida pelo fato de que ele tem outra família na metrópole. Essa dor a acompanha como estigma – dia e noite. Os olhinhos pequenos, sempre marejados de lágrimas, a foto dos dois filhos na contracapa da carteira e no pescoço um pingente de ouro, que carrega como álibi de sua paixão pelo amor perdido.

Nesta manhã, Rita havia andado apenas uns dez metros quando foi abordada por dois indivíduos – encapuzados, boné baixo, disfarçando o rosto. Um à esquerda e outro à direita.

– Daí tia, a casa caiu. Passa a bolsa aí! – disse o mais atlético, enquanto tomava a bolsa pelo lado esquerdo.

– Passa o celular, tia – ordenou o outro à sua direita, agarrando-a pelo antebraço, e completou com tom de comando: – Tá falado!

– Não tenho celular – mal conseguiu responder a mulher, há pouco separada do marido.

– Como é que não tem, tia? Vai tirando! Quer levar um tiro na cara? – falou agressivamente, encostando a arma na mandíbula, ao mesmo tempo em que extorquia o celular do bolso da vítima.

E os dois assaltantes prosseguiram impunes em direção ao ponto de ônibus, levando-lhe os pertences, seu pequeno talismã e a coragem de avançar.

Rita ficou petrificada no meio do caminho. Parou ali alguns minutos, em estado de choque, deletando da memória as lutas do passado para vencer o medo de uma arma na cara. Depois refez o caminho de volta, entrou de mansinho, tomou o celular do filho e, com a voz embargada, mal conseguiu falar para Dona Marta que não chegaria a tempo.

A patroa, uma pequena empresária sempre compreensiva com seus colaboradores, mas extremamente exigente com a verdade, questiona o atraso. Rita sufoca a dor, bloqueia o único cartão e, na ponta do pé, coloca o celular ao lado do filho que ainda dorme.

Levantar a cabeça e dar a volta por cima

Às sete horas, Rita resgata a coragem e vai ao trabalho. Sem documento, sem dinheiro, sem o celular que ainda estava pagando em prestações e, o que mais lhe dói, sem a lembrança de valor sentimental insubstituível.

– Estou com muito trauma – repete para Dona Marta. – Aquela sensação ruim de ter que enfrentar o medo, não querer pegar o ônibus, me deixa com trauma. Minha perna treme; sensação ruim, muito ruim, sabe? Fico gelada, suando e com medo. Acho que jamais vou esquecer aquela voz: quer levar um tiro na cara? Quer levar um tiro na cara?! –repete com sutis movimentos do corpo, beirando o descontrole, enquanto, com a faca de picar na mão direita, espalha com o punho as lágrimas pela bochecha. Assim, entre o salgado das lágrimas e a doçura do amor, que teima em não morrer, a pequena grande guerreira recomeça sua luta. Vence a dor, o medo e a saudade.

Freepik.com

Ó Pai, tu nos moldaste no calor de tua ternura e nos nutres com carinho neste jardim de infinitas possibilidades.

Egressos das entranhas de teu amor infinito, estreamos neste mundo com medo, vivemos com medo e morremos com medo, como se ele estivesse no rodapé de cada página de nossa história. Medo da violência, medo do desemprego, medo do amor, medo do medo. Que paradoxo!

Pai, que o teu amor afaste o medo e, apesar das rupturas indispensáveis na costura do humano, nossa identidade regresse íntegra e agradecida aos teus braços, ao teu aconchego.

Carmen Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

1 COMENTÁRIO

  1. o texto é um pedaço das múltiplas situações em que o ser humano honesto está sujeito na sociedade atual. Triste o fato ocorrido, mas ao mesmo tempo mostra a garra e a coragem determinante da mulher inserida neste cenário tão amplamente diversificado e cheios de conquistas.

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